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Artigo - Barjas Negri - O Papel do Poder Público na Valorização da Memória Negra

Publicada em: 24/11/2025 10:01 -

O Papel do Poder Público na Valorização da Memória Negra

 

Barjas Negri

 

 

Nos últimos anos, Piracicaba tem assistido a um movimento cada vez mais vigoroso de valorização da memória e da cultura negra. Não se trata apenas de resgatar o passado, mas de compreender que nossa cidade construída com a força e o trabalho de negros escravizados e seus descendentes só se fortalece quando reconhece plenamente essa herança. Hoje, quando o calendário marca mais um novembro, mês da Consciência Negra, vale revisitar esse percurso e olhar com atenção para o que ainda precisamos construir.

Em 2022, a Folha de S. Paulo destacou Piracicaba em uma ampla matéria sobre Afroturismo, ressaltando iniciativas que unem lazer, conhecimento e história. A proposta do afroturismo é simples e profunda: reconstruir a herança negra a partir dos lugares cotidianos, permitindo que moradores e visitantes conheçam de perto capítulos ainda pouco explorados de nossa trajetória coletiva.

Aqui em Piracicaba, cinco pontos compõem esse roteiro inicial: o histórico Clube Treze de Maio, a tradicional Igreja de São Benedito, o Centro de Documentação, Cultura e Política Negra, a simbólica Ponte Irmãos Rebouças e o Engenho Central, onde está o busto do médico negro André Ferreira dos Santos, o popular Dr. Preto. Esses locais carregam memórias profundas de resistência, de sofrimento e, sobretudo, de contribuição marcante para o desenvolvimento da cidade.

Mas Piracicaba vai além. Temos o Parque Histórico Quilombo Corumbataí, no distrito de Santa Teresinha, onde há dois séculos viviam negros fugidos da escravidão, e o Centro Cultural e Social Vila África, inaugurado em minha gestão como prefeito de Piracicaba, que se consolidou como polo de afirmação identitária e produção cultural da comunidade negra.

Ao olhar para esse cenário em 2025, não posso deixar de recordar um momento marcante que vivi como prefeito: a entrega da sede própria do Centro de Documentação, Cultura e Política Negra, instalada na Rua Luiz de Queiroz. A inauguração, que contou com apresentações do bloco da Ema, do Grupo Vocal Sanguluka e da capoeira do Grupo Cativeiro, celebrou mais que um espaço físico; celebrou uma conquista política, histórica e afetiva.

Naquela ocasião, testemunhei o orgulho da então presidente Eva Ildes, que lembrou que a cerimônia acontecia no Dia Internacional de Combate ao Racismo, data marcada pelo massacre de Shaperville, na África do Sul. Eva ressaltou, com razão, que a sede própria representava não apenas a consolidação institucional do Centro, mas também o reconhecimento da luta de todos que enfrentam o preconceito contra negros, indígenas, judeus, pessoas com deficiência e tantos outros grupos vulnerabilizados por discriminações diversas.

A secretária municipal de Ação Cultural na época da inauguração, Rosângela Camolese, disse algo que mantenho comigo até hoje: “O país tem muito o que agradecer à comunidade negra.” De fato, nossa história — da economia às artes, da religião à gastronomia — está profundamente entrelaçada às contribuições de homens e mulheres negros, que lutaram, resistiram e transformaram a realidade brasileira.

Hoje, em 2025, o afroturismo ganha força nacional, e Piracicaba tem papel de destaque nesse processo. Entretanto, a pauta racial exige permanência, vigilância e investimento contínuo. Nossa cidade avançou, mas ainda há desafios: ampliar políticas de inclusão, combater práticas discriminatórias, fortalecer projetos culturais, apoiar lideranças negras e garantir que os espaços de memória permaneçam vivos e acessíveis.

Como sempre defendi, movimentos sociais que lutam contra o racismo têm caráter permanente, e assim devem permanecer. O Centro de Documentação, Cultura e Política Negra, que ajudei a estruturar, tornou-se uma referência local e caminha para ser também referência estadual. Isso só foi possível graças à mobilização da própria comunidade negra, que nunca abriu mão de seu protagonismo.

O afroturismo, o reconhecimento institucional, os espaços culturais e a preservação da memória não são apenas ações pontuais. São partes de um projeto maior: o de construir uma Piracicaba mais justa, plural e consciente de sua própria história. Uma cidade que honra seu passado, celebra seu presente e prepara um futuro no qual nenhuma forma de racismo ou discriminação encontre lugar para existir.

Porque, acima de tudo, a história negra é parte indissociável da história piracicabana e valorizá-la é valorizar nossa própria identidade.

 

Barjas Negri foi ministro da Saúde e prefeito de Piracicaba por três gestões

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