Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho
O voto começa cedo, mas a democracia se decide até o último minuto
Ronaldo Castilho
A imagem de que o brasileiro escolhe seus candidatos apenas na véspera da eleição não encontra sustentação completa nos dados da pesquisa Genial/Quaest, realizada entre 31 de julho e 3 de agosto de 2026. O levantamento mostra que a maioria dos eleitores afirma começar a definir o voto com antecedência, especialmente quando se trata da Presidência da República. Entretanto, à medida que os cargos se distanciam do centro das atenções nacionais, cresce o número de cidadãos que adiam a decisão. Essa diferença revela não apenas o funcionamento das campanhas eleitorais, mas também as desigualdades de informação, interesse e identificação política existentes no país.
A pesquisa, registrada sob o número BR-06591/2026, ouviu presencialmente 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais. A margem de erro estimada é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. De acordo com o levantamento, 58% dos entrevistados afirmam decidir o voto para presidente vários meses antes da eleição, enquanto outros 20% fazem a escolha um mês ou algumas semanas antes. Isso significa que 78% chegam à reta final da campanha com uma inclinação presidencial já formada. Apenas 10% decidem na semana ou na véspera e outros 10% somente no dia da votação.
Para governador, o quadro é um pouco diferente. A parcela que decide vários meses antes cai para 44%, enquanto 28% fazem a escolha um mês ou algumas semanas antes. No caso do Senado, somente 34% dizem escolher o candidato com vários meses de antecedência. Outros 29% decidem algumas semanas antes, 18% deixam para a semana ou para a véspera e 14% escolhem apenas no dia da eleição. Os números demonstram que, quanto menor a visibilidade do cargo, maior tende a ser a indefinição.
A decisão antecipada, porém, não deve ser automaticamente confundida com uma decisão refletida. Um eleitor pode escolher cedo porque pesquisou propostas, comparou trajetórias e avaliou os resultados de diferentes governos. Mas também pode decidir antecipadamente por identidade partidária, tradição familiar, influência religiosa, rejeição a determinado grupo ou simples fidelidade pessoal a uma liderança. A antecedência informa quando o voto foi definido, mas não explica, sozinha, a qualidade do processo que levou à escolha.
Nicolau Maquiavel chamou a atenção para a distância que pode existir entre a aparência e a realidade no exercício do poder. Embora tenha escrito em um contexto muito anterior às eleições de massa, sua análise permanece atual em tempos de marketing político, redes sociais, vídeos cuidadosamente editados e discursos construídos para despertar emoções. O eleitor pode acreditar que tomou uma decisão autônoma quando, na verdade, está reagindo a uma imagem fabricada pelas campanhas.
John Locke estabeleceu o consentimento dos governados como fundamento da legitimidade política. O poder não seria uma propriedade natural dos governantes, mas uma responsabilidade concedida pela sociedade. Essa concepção aumenta o peso moral do voto. Quando um cidadão escolhe presidente, governador ou senador, não está apenas apontando um nome na urna. Está autorizando alguém a tomar decisões que afetarão sua liberdade, seu patrimônio, sua segurança e o funcionamento das instituições.
Jean-Jacques Rousseau também enxergava a participação política como elemento indispensável da soberania popular. Sua ideia de vontade geral não representa a simples soma dos interesses particulares, mas a procura por aquilo que pode beneficiar a coletividade. Aplicada ao presente, essa reflexão nos obriga a perguntar se o eleitor escolhe pensando exclusivamente em suas afinidades pessoais ou se considera as consequências da escolha para toda a sociedade.
Os dados por escolaridade reforçam a importância do acesso à informação. Entre os entrevistados com ensino fundamental, 53% afirmam decidir o voto para presidente vários meses antes. O percentual sobe para 60% entre os que possuem ensino médio e alcança 68% entre aqueles com ensino superior. No voto para o Senado, a diferença também é expressiva: 28% dos entrevistados com ensino fundamental escolhem vários meses antes, ante 34% no ensino médio e 42% no ensino superior.
A renda apresenta movimento semelhante. Entre os brasileiros cuja renda familiar é de até dois salários mínimos, 54% escolhem o presidente vários meses antes. O índice chega a 66% entre os que recebem mais de cinco salários mínimos. Para senador, os percentuais são de 28% e 41%, respectivamente. Isso não significa que maior renda ou escolaridade garantam uma escolha melhor, mas indica que o acesso às informações, o tempo disponível para acompanhar a política e o grau de exposição ao debate público influenciam o momento da decisão.
John Stuart Mill defendia a liberdade de expressão e o confronto entre opiniões como instrumentos para alcançar uma compreensão mais sólida da realidade. Uma sociedade democrática precisa assegurar que o eleitor tenha acesso a posições divergentes, inclusive àquelas das quais discorda. Quando as pessoas permanecem fechadas em bolhas digitais, recebendo apenas conteúdos que confirmam suas crenças, o debate deixa de ser uma oportunidade de aprendizado e passa a funcionar como mecanismo de reafirmação de certezas.
A pesquisa também mostra diferenças importantes conforme o posicionamento político. Entre os lulistas, 69% dizem decidir o voto presidencial vários meses antes. O mesmo percentual aparece entre os bolsonaristas. Na direita não bolsonarista, são 66%, e na esquerda não lulista, 67%. Entre os independentes, porém, o índice cai para 41%. Esse grupo concentra uma parcela muito maior de eleitores que decide durante as últimas semanas, na véspera ou no próprio dia da eleição.
Esse resultado evidencia uma característica central da disputa de 2026: os grupos politicamente identificados começam a campanha com o voto mais consolidado, enquanto os independentes formam o território decisivo da persuasão eleitoral. São eles que podem alterar o equilíbrio da disputa, especialmente quando as diferenças entre os candidatos são pequenas. A eleição, portanto, não será definida apenas pela capacidade de mobilizar as bases, mas também pela competência para dialogar com quem não se sente representado pelos principais polos políticos.
Entre católicos e evangélicos, os resultados são praticamente iguais. Para presidente, 58% dos católicos e 57% dos evangélicos decidem vários meses antes. Para governador, os índices são de 44% e 43%. No Senado, ambos os grupos registram 33%. Os dados sugerem que, isoladamente, o pertencimento religioso não produz uma diferença significativa no momento da decisão, embora valores morais, lideranças comunitárias e pautas religiosas possam influenciar o conteúdo da escolha.
Hannah Arendt valorizava a capacidade de julgar, isto é, de observar os acontecimentos considerando diferentes perspectivas. Seu pensamento é particularmente necessário numa época em que a indignação instantânea frequentemente substitui a análise. O voto consciente exige disposição para desconfiar das próprias certezas, reconhecer fatos inconvenientes e avaliar os candidatos para além da propaganda e das paixões partidárias.
Jürgen Habermas, por sua vez, destacou a importância da esfera pública como espaço de formação da opinião por meio do diálogo racional. Nesse sentido, imprensa profissional, debates, entrevistas e confrontos públicos de propostas são essenciais. Uma campanha reduzida a slogans, ataques pessoais e conteúdos de poucos segundos empobrece a decisão do eleitor, principalmente nos cargos menos conhecidos.
A pesquisa mostra ainda que 66% dos homens escolhem o presidente vários meses antes, ante 50% das mulheres. Para governador, são 53% entre os homens e 37% entre as mulheres. No Senado, 39% e 27%, respectivamente. A diferença não deve ser interpretada como desinteresse feminino, mas pode refletir níveis distintos de identificação com candidaturas, prioridades políticas e representatividade. Em vez de responsabilizar as eleitoras pela decisão mais tardia, partidos e candidatos deveriam perguntar por que suas propostas não conseguem produzir identificação antecipada com uma parcela tão relevante da sociedade.
Os dados regionais também revelam contrastes. No Nordeste, 64% escolhem o presidente vários meses antes. No Sudeste, o percentual é de 59%, enquanto Sul e Centro-Oeste/Norte registram 52%. Para governador e senador, as decisões se tornam mais distribuídas ao longo da campanha. Isso demonstra que as realidades políticas regionais permanecem importantes e que o Brasil não pode ser tratado como um eleitorado uniforme.
Decidir cedo não é necessariamente melhor, assim como decidir na última hora não significa irresponsabilidade. O eleitor pode rever sua posição ao descobrir um fato novo, assistir a um debate, conhecer uma proposta ou perceber uma contradição. Mudar de opinião diante de novas evidências não é fraqueza; pode ser sinal de maturidade. O problema surge quando a escolha é feita sem informação, por impulso ou sob a influência deliberada da desinformação.
O levantamento Genial/Quaest revela que a corrida presidencial começa com grande parte do eleitorado já posicionada, enquanto as disputas para governador e, principalmente, para o Senado permanecem mais abertas. Para os candidatos, isso significa que a comunicação não pode se limitar à busca por visibilidade. Para o eleitor, significa que conhecer as atribuições de cada cargo é indispensável. Um senador participa da elaboração das leis nacionais, fiscaliza o Executivo e vota indicações para instituições fundamentais da República. Escolhê-lo apenas no dia da eleição é correr o risco de entregar um mandato de oito anos a alguém sobre quem pouco se sabe.
A urna registra uma decisão individual, mas produz consequências coletivas. Dos antigos gregos aos pensadores contemporâneos, permanece a mesma advertência: não existe democracia sólida sem cidadãos capazes de participar, refletir e assumir responsabilidade por suas escolhas. O momento em que o voto é decidido importa, mas importa ainda mais o caminho percorrido até essa decisão. Antes de confirmar qualquer número, o eleitor precisa perguntar não apenas quem o representa, mas que país ajudará a construir com sua escolha.
Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

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