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Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Conectados com o mundo, distantes da vida: a tecnologia aproxima ou afasta as pessoas da realidade?

 

Ronaldo Castilho

 

Nunca tivemos acesso tão rápido a tantas pessoas, informações e acontecimentos. Em poucos segundos, uma mensagem atravessa continentes, uma chamada de vídeo reúne familiares separados por milhares de quilômetros e uma notícia publicada em uma pequena cidade pode alcançar leitores no mundo inteiro. A tecnologia encurtou distâncias, democratizou conhecimentos e ampliou oportunidades. Entretanto, quanto mais conectada se torna a sociedade, mais necessária é uma pergunta: essa conexão permanente está nos aproximando da realidade ou criando novas maneiras de fugir dela?

A resposta não é simples. A tecnologia pode aproximar e afastar ao mesmo tempo. Um celular permite conversar com alguém que vive em outro país, mas também pode separar pessoas sentadas à mesma mesa. Uma rede social pode mobilizar uma campanha solidária, denunciar injustiças e dar visibilidade a grupos historicamente esquecidos. A mesma plataforma, porém, pode espalhar mentiras, estimular comparações e aprisionar seus usuários em ambientes nos quais apenas opiniões semelhantes são aceitas.

O grande paradoxo de nossa época é que estamos conectados a quase tudo, mas nem sempre verdadeiramente presentes. Participamos de inúmeras conversas, porém ouvimos cada vez menos. Recebemos informações durante todo o dia, mas encontramos dificuldade para transformá-las em conhecimento. Fotografamos e filmamos acontecimentos enquanto perdemos a capacidade de simplesmente vivê-los. A tecnologia, criada para funcionar como ponte entre as pessoas e o mundo, corre o risco de se transformar em uma cortina diante da realidade.

É comum encontrar famílias reunidas em restaurantes nas quais cada integrante olha para a própria tela. Casais dividem o mesmo sofá, mas permanecem concentrados em universos digitais diferentes. Crianças aprendem muito cedo a deslizar os dedos sobre aparelhos, embora nem sempre tenham as mesmas oportunidades para brincar, conversar com os avós, observar a natureza ou desenvolver a paciência necessária para ouvir uma história. O problema não está apenas no tempo diante das telas, mas no espaço que elas passaram a ocupar dentro das relações humanas.

Na comunicação digital, podemos revisar uma frase antes de enviá-la, interromper uma conversa sem explicações e mostrar apenas as partes da personalidade que consideramos mais interessantes. Na vida real, não existe um botão para editar sentimentos, apagar constrangimentos ou acelerar os silêncios. Relacionamentos profundos exigem paciência, responsabilidade e disposição para lidar com o imprevisível. Quando nos acostumamos apenas às relações controladas pelas telas, o contato humano pode parecer complexo e exigente demais.

Essa perda de profundidade também aparece na forma como enxergamos a vida dos outros. Nas redes sociais, acompanhamos viagens, festas, conquistas, corpos idealizados e relacionamentos aparentemente perfeitos. Quase nunca aparecem o fracasso, a insegurança, as dificuldades financeiras, os conflitos familiares e os dias comuns. O que vemos é uma versão cuidadosamente editada da existência.

Ao comparar sua rotina com os melhores momentos publicados pelos outros, o indivíduo pode concluir que todos são mais felizes, produtivos e realizados. Não percebe que está comparando seus bastidores com a vitrine alheia. Dessa distorção nascem frustrações, sentimentos de inadequação e uma busca permanente por aprovação. A experiência deixa de ser valorizada pelo que proporciona e passa a ser medida pela quantidade de curtidas e comentários que consegue produzir.

 

Outro problema é a transformação da atenção em mercadoria. Notificações, vídeos curtos e atualizações infinitas disputam cada segundo de concentração. Quanto mais tempo o usuário permanece conectado, maior é o lucro das plataformas. A mente se acostuma aos estímulos rápidos e passa a considerar cansativas atividades que exigem continuidade, como ler um livro, estudar um assunto complexo ou ouvir atentamente outra pessoa.

Não é apenas o tempo que está sendo capturado, mas também a capacidade de refletir. Até o descanso pode ser transformado em conteúdo. Uma viagem precisa ser fotografada, a refeição deve ser publicada e o exercício físico merece um registro. Aos poucos, torna-se mais importante demonstrar felicidade do que compreender aquilo que realmente nos faz felizes. A paisagem é vista por meio da câmera, e a conversa é interrompida para verificar as reações a uma postagem.

Uma indignação pode dominar as redes sociais pela manhã e desaparecer no fim do dia, substituída por outro assunto. Milhares de pessoas comentam e compartilham, mas poucas transformam essa energia em participação política, organização comunitária ou compromisso contínuo. A velocidade das plataformas favorece a reação imediata, enquanto a transformação da realidade exige tempo, planejamento e perseverança.

A personalização dos conteúdos aprofunda esse problema. Os algoritmos observam preferências e oferecem publicações capazes de manter o usuário conectado. Aos poucos, cada pessoa passa a receber uma realidade organizada conforme suas crenças, seus medos e seus desejos. Pessoas que vivem na mesma cidade podem habitar universos informativos completamente diferentes.

Esse processo cria bolhas nas quais encontramos repetidamente opiniões semelhantes às nossas. Quando surge uma visão diferente, ela deixa de ser recebida como contribuição ao debate e passa a ser considerada uma agressão. O adversário político torna-se inimigo. A convivência democrática, que depende da existência de uma realidade minimamente compartilhada, torna-se cada vez mais difícil.

Com o avanço da inteligência artificial, sistemas digitais não apenas transmitem informações, mas também produzem textos, imagens, vídeos e narrativas. Fotografias falsas podem parecer verdadeiras, vozes podem ser reproduzidas e vídeos podem colocar palavras na boca de pessoas que jamais as pronunciaram. A antiga orientação de “ver para crer” já não oferece segurança suficiente.

Apesar desses riscos, as redes também abriram espaço para grupos antes ignorados. Casos de racismo, violência contra a mulher, abuso de autoridade e degradação ambiental podem ser registrados e divulgados. A câmera de um celular, utilizada com responsabilidade, torna-se instrumento de memória, fiscalização e defesa de direitos. A tecnologia aproxima da realidade quando revela aquilo que interesses poderosos gostariam de esconder.

A discussão, portanto, não deve ser reduzida à escolha entre aceitar ou rejeitar a inovação. Não existe retorno a um mundo sem internet, celulares ou inteligência artificial. A questão central é decidir qual lugar essas ferramentas devem ocupar na vida humana. Elas podem servir ao homem ou transformar o homem em servidor de seus mecanismos. Podem fortalecer a democracia ou premiar a mentira mais eficiente.

A pergunta mais importante, portanto, não é apenas se a tecnologia aproxima ou afasta as pessoas da realidade. Devemos perguntar que tipo de realidade estamos construindo por meio dela. A tecnologia poderá nos aproximar se continuarmos capazes de desligar a tela, levantar os olhos e reconhecer quem está ao nosso lado. Caso contrário, poderemos saber o que acontece em todos os lugares do planeta e, ainda assim, permanecer distantes da vida que acontece diante de nós.

Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

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