Patriotismo em disputa: quando amar o Brasil se transforma em instrumento da política
Ronaldo Castilho
O patriotismo sempre ocupou um lugar especial na formação das nações. Bandeiras, hinos, símbolos nacionais e a defesa dos interesses do país são elementos que ajudam a construir a identidade coletiva de um povo. No entanto, quando o patriotismo passa a ser apropriado como patrimônio exclusivo de um grupo político ou de uma liderança, ele deixa de ser um sentimento de união para se transformar em mais um elemento da polarização. A recente pesquisa Genial/Quaest sobre patriotismo e defesa do Brasil oferece um retrato interessante desse fenômeno ao revelar como os brasileiros associam a ideia de defesa nacional a determinadas lideranças políticas.
Segundo o levantamento, a maioria dos entrevistados considera que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva representa melhor, atualmente, o discurso de patriotismo e defesa dos interesses do Brasil do que Flávio Bolsonaro. Lula aparece com 51% das respostas, enquanto Flávio Bolsonaro registra 34%. Outros 9% afirmam que nenhum dos dois representa esse papel e 6% não souberam responder. O resultado mostra uma mudança relevante em relação ao levantamento anterior, realizado em junho, quando Lula já liderava, mas com uma diferença menor.
Mais importante do que os números em si é compreender o significado político dessa percepção. Durante muitos anos, especialmente após as manifestações de 2013 e durante os governos de Jair Bolsonaro, os símbolos nacionais passaram a ser fortemente identificados com determinados segmentos da direita brasileira. O uso da bandeira nacional, das cores verde e amarela e até mesmo da camisa da Seleção Brasileira tornou-se, em muitos momentos, uma manifestação de posicionamento político, algo que dificilmente acontecia em décadas anteriores.
Esse fenômeno produziu uma consequência curiosa: muitos brasileiros passaram a acreditar que o patriotismo possuía lado ideológico. Entretanto, a própria história demonstra exatamente o contrário. Amar o país, defender sua soberania, proteger suas instituições e desejar seu desenvolvimento nunca foi exclusividade de partidos, governos ou movimentos específicos. Trata-se de um valor que deveria unir uma sociedade, independentemente das divergências eleitorais.
A pesquisa revela também diferenças importantes entre os diversos segmentos da população. Lula lidera com maior folga entre moradores do Nordeste, pessoas de menor renda, idosos e eleitores que votaram nele em 2022. Já Flávio Bolsonaro mantém vantagem entre os bolsonaristas, parte dos evangélicos e setores da direita não bolsonarista, demonstrando que a percepção sobre quem melhor representa o patriotismo continua profundamente influenciada pela identidade política dos entrevistados.
Outro dado relevante é que a pesquisa mostra um país composto por diferentes identidades políticas. Quando os entrevistados foram convidados a definir seu posicionamento ideológico, o maior grupo foi o dos independentes, com 33%, seguido pelos que se identificam como direita não bolsonarista (21%), lulistas (19%), esquerda não lulista (13%) e bolsonaristas (12%). Esses números ajudam a compreender que a sociedade brasileira é mais plural do que muitas vezes parece nas redes sociais ou nos debates mais radicalizados.
É justamente nesse ponto que reside uma reflexão necessária. A política contemporânea passou a disputar não apenas votos, mas também símbolos, sentimentos e identidades. Em vez de discutir exclusivamente programas de governo, reformas ou indicadores econômicos, muitas campanhas procuram convencer o eleitor de que determinado grupo representa melhor valores como liberdade, democracia, patriotismo ou justiça social. Essa estratégia não é exclusividade do Brasil. Em diferentes democracias, conceitos historicamente universais vêm sendo apropriados por campos políticos distintos.
Filósofos como Aristóteles já afirmavam que a política deveria buscar o bem comum. Jean-Jacques Rousseau defendia que a soberania pertence ao povo e não aos governantes. Alexis de Tocqueville via na participação cívica um dos pilares da democracia. Mais recentemente, pensadores como Jürgen Habermas destacaram que a legitimidade democrática depende do diálogo público e da construção coletiva de consensos. Nenhum desses autores associava o amor à pátria a um partido ou a um governante específico. Pelo contrário, entendiam que o verdadeiro patriotismo nasce da responsabilidade compartilhada pelos destinos da nação.
No Brasil, talvez seja hora de recuperar esse sentido mais amplo. Defender o país significa fortalecer suas instituições, preservar a Constituição, promover crescimento econômico, combater desigualdades, investir em educação, ciência, inovação, segurança pública e infraestrutura. Significa também respeitar as diferenças políticas sem transformar adversários em inimigos da pátria.
Pesquisas de opinião medem percepções, não verdades absolutas. Elas retratam um determinado momento histórico e ajudam a compreender como a sociedade interpreta a realidade. O levantamento da Genial/Quaest mostra que, neste momento, Lula é visto por uma parcela maior da população como o principal representante do discurso de patriotismo e defesa do Brasil. Amanhã, esse cenário poderá ser diferente. O que permanece é a necessidade de compreender que o patriotismo não deveria mudar conforme o ocupante do Palácio do Planalto.
Uma democracia madura não precisa escolher entre amar o país e discordar de seus governantes. Pelo contrário, talvez o maior ato de patriotismo seja justamente preservar a capacidade de debater ideias, fiscalizar o poder, respeitar a diversidade de opiniões e trabalhar para que o interesse nacional esteja sempre acima das disputas eleitorais. Afinal, governos passam, lideranças mudam, partidos se reorganizam. O Brasil, porém, continua sendo um patrimônio comum de todos os brasileiros.
Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.