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Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 25-09-2026

Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 25-09-2026

Por Adriana Passari - @adrianapassari

O solitário pé de meia

 

Começo esta história contando sobre um triste e solitário pé de meia. Sim, um pé de meia tem sentimentos, mesmo que não pareça aos olhares menos sensíveis. Depois de ajustar o foco para o leitor perceber que até um pé de meia pode ter sentimentos, seguimos com a narração.

O pobre pé de meia estava se sentindo mais solitário que nunca naquele dia. Ali, jogado num canto esquecido de um armário. Aquele canto que foi escolhido como a brilhante ideia de se tornar o encontradouro de meias.

A doida varrida da dona da casa, onde vivia o pé de meia, decidiu um dia que os pés de meias sem par deveriam ir para aquele canto, onde deveriam esperar para encontrar seu respectivo par. A ideia até que funcionava às vezes. Aquele pobre pé de meia assistiu, esperançoso, vários pares de meia se formarem e partirem, enquanto ele continuava ali.

Recordava com nostalgia os invernos passados, quando alegremente cumpria sua missão aquecendo pés, às vezes embaixo de cobertores macios, às vezes por dentro de botas um pouco apertadas, outras vezes absorvendo o suor e amaciando o impacto de pés cansados batendo no chão em longas caminhadas.

A cada novo par formado ali no encontradouro, ardia nele novamente a chama da esperança. Mesmo que digam que ela, a esperança, é a última que morre, ele sentia que talvez esse último suspiro da sua esperança estaria chegando. Ele bem percebeu que de uns tempos pra cá, os pares perdidos que chegavam e logo partiam acompanhados, pareciam bem

mais novos do que ele. Preparava-se para enfrentar o seu destino. E o destino chegou no dia da faxina. Ele foi retirado oficialmente do encontradouro e classificado como caso perdido. Foi juntado a outros tantos pares com evidentes sinais de desgaste.

 Mãos bastante habilidosas começaram a embolar cada pé de meia por dentro do outro e a bola foi ficando maior e mais firme até não sobrar nem um pé ou par abandonado. E foi assim que todos juntos passaram a servir de brinquedo para as crianças naquele lar.

 

Ouça a história na voz da Adriana Passari:

 

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