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Rádio Piracicaba

Coluna: Entre Linhas com Ivana Negri

Coluna: Entre Linhas com Ivana Negri

Coisas da natureza

Ivana Maria França de Negri

 

Às vezes acontecem fatos que nos levam a refletir sobre as leis imutáveis que regem a natureza e contra as quais nada podemos fazer, absolutamente nada.

            Atraída pela forte luz, uma enorme e negra borboleta adentra em minha sala e fica esvoaçando abobalhadamente em círculos ao redor do lustre. Como estava a se debater, desliguei rapidamente a luz para que não morresse queimada. Não a vi mais e deduzi que tivesse voado para fora e fui dormir.

            Na manhã seguinte, avistei-a grudada na parede e pude vislumbrar mais de perto a perfeição dos desenhos rigorosamente simétricos em suas asas, obra do Grande Artista da Natureza. Dia claro, deu para notar que sua cor era cinza-azulada e não preta como eu enxergara na noite anterior. E a estampa simétrica talvez fosse única, nenhuma outra borboleta deve ter o mesmo padrão no mundo todo.

Minha gata, excitadíssima, de plantão aguardava, esperando o melhor momento para dar o bote e apanhar o “brinquedo”. Afastei-a dali e, com o auxílio de uma vassoura, tentei o mais gentilmente possível colocar a borboleta para fora, na sacada. Quando finalmente o consegui, já ia respirar aliviada por tê-la salvo para a amplidão do céu, quando numa fração de segundo, um bando de passarinhos barulhentos passa e um deles agarra no ar a pobre borboleta no bico e a leva consigo para longe...

            Fiquei pasma, sem ação. Tanto trabalho em vão, pensei comigo. Salvei-a de morrer tostada na lâmpada e das garras da gatinha, mas um passarinho achou que ela seria ótimo petisco para seus filhotes. Como impedir? Quem sou eu ante os mistérios da natureza?

            Isso me fez tecer uma analogia com o caso de um senhor, que fiquei sabendo, odiava gatos e os envenenava sem piedade. Ele era réu confesso, conhecido no bairro onde morava como exterminador de felinos. Alegava serem os gatos, animais de má índole porque caçam inocentes passarinhos, sua paixão. Só que não entendo esse tipo de “paixão” que ele nutre pelas aves já que as mantém reclusas eternamente em minúsculas gaiolas, onde nem se locomover conseguem. Que tipo de amor é esse que rouba a liberdade de quem tem asas para voar? E ele é apreciador de carne de frango. Que eu saiba, frango também é ave...

            Esse é um paradoxo humano que não consigo compreender. Ele tem dó das aves que os gatos caçam, mas não tem pena das que ele mesmo aprisiona em gaiolas e das que devora. A diferença é que o gato é irracional, não tem discernimento, e ele, como ser racional, deveria saber distinguir o que é certo do que é errado. O passarinho, ao trucidar uma minhoca ou uma borboleta, também tem instinto malévolo, ou melhor dizendo, instinto de sobrevivência, de alimentar a prole, como os gatos. Eles seguem os instintos naturais. Nós, humanos, podemos pensar e refletir. E agir racionalmente.

Isso tudo traz uma grande lição para nossa vida: não somos nós que, envenenando, matando, acusando somente os outros, consertaremos o mundo. Temos de reconhecer os erros que nós mesmos cometemos e tentar mudar nosso comportamento para aperfeiçoar-nos e não só enxergar as falhas dos outros e condená-los. Cada ser humano é senhor de seus atos, e pagará pelos próprios erros ou receberá a devida recompensa. Tudo é milimetricamente supervisionado pela Grande Ordem Divina que rege o Universo.

 

Ivana Maria França de Negri é escritora

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