Tarifaço, geopolítica e disputa política: como a ofensiva dos EUA fortaleceu Lula e redesenhou o cenário brasileiro
Ronaldo Castilho
A decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros marca um dos momentos mais delicados das relações entre Brasília e Washington nas últimas décadas. Embora a medida tenha sido apresentada oficialmente como uma resposta comercial, seus efeitos extrapolaram rapidamente a economia e passaram a influenciar o ambiente político brasileiro. O episódio evidencia que, em política internacional, decisões econômicas frequentemente escondem objetivos estratégicos, diplomáticos e eleitorais muito mais amplos.
É comum que o debate público personalize as decisões da Casa Branca na figura do presidente dos Estados Unidos. Entretanto, a política externa norte-americana é construída por um complexo sistema institucional, no qual o secretário de Estado exerce papel central. Nesse episódio, Marco Rubio desponta como um dos principais protagonistas da condução da estratégia americana em relação ao Brasil. Isso não significa que Donald Trump esteja alheio às decisões ou que elas ocorram sem sua concordância, mas evidencia que a formulação e a execução da política diplomática contam com forte atuação de Rubio e do Departamento de Estado.
Filho de imigrantes cubanos, Marco Rubio construiu sua trajetória política defendendo posições firmes contra governos de esquerda na América Latina. Sua visão de mundo foi moldada, em grande parte, pela experiência da comunidade cubano-americana, historicamente crítica aos regimes de Cuba, Venezuela e Nicarágua. Dentro desse contexto ideológico, o governo brasileiro comandado por Luiz Inácio Lula da Silva acaba sendo frequentemente inserido em um mesmo eixo político latino-americano que desperta resistência entre setores conservadores dos Estados Unidos.
Outro aspecto que merece atenção é o futuro político de Rubio. Há anos ele figura entre os principais nomes do Partido Republicano para uma eventual disputa pela Presidência dos Estados Unidos. Mesmo que Donald Trump permaneça como a principal liderança republicana, a construção de uma candidatura presidencial exige demonstrações constantes de firmeza e protagonismo. Assumir posições duras diante de governos estrangeiros considerados adversários ideológicos fortalece seu discurso e amplia seu capital político dentro do eleitorado conservador americano.
A pergunta inevitável é: o que Marco Rubio ganha politicamente com esse enfrentamento? Internamente, reforça sua imagem de líder da política externa, consolida seu histórico de enfrentamento à esquerda latino-americana e acumula credenciais para futuras disputas nacionais. Nos Estados Unidos, ações dessa natureza costumam produzir dividendos eleitorais muito superiores aos seus próprios efeitos econômicos.
Naturalmente, Donald Trump continua sendo a principal autoridade do governo e nenhuma decisão dessa magnitude seria adotada sem sua anuência. Entretanto, também é verdade que o Brasil dificilmente ocupa posição prioritária na agenda estratégica da Casa Branca. As maiores preocupações americanas permanecem concentradas na disputa com a China, na guerra entre Rússia e Ucrânia, nas tensões do Oriente Médio, na segurança do Indo-Pacífico e no controle da imigração. Sob essa perspectiva, o Brasil acaba inserido em uma estratégia regional conduzida pelo Departamento de Estado muito mais do que por um interesse pessoal do presidente americano.
Nesse contexto surge outro elemento inevitável: a influência da família Bolsonaro junto a integrantes do governo americano. É público que parlamentares e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro mantêm interlocução com lideranças do Partido Republicano, incluindo Marco Rubio. Essas relações políticas existem e fazem parte da diplomacia partidária contemporânea. No entanto, seria simplista afirmar que o tarifaço decorre exclusivamente dessa aproximação ou dos processos judiciais envolvendo Bolsonaro. A política internacional raramente possui uma única explicação. Interesses econômicos, estratégicos, eleitorais, ideológicos e diplomáticos costumam atuar simultaneamente.
Enquanto especialistas discutiam os bastidores da decisão americana, uma pesquisa revelou que o episódio produziu efeitos políticos imediatos dentro do Brasil.
O levantamento nacional da Genial/Quaest, registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07181/2026, realizado entre os dias 10 e 13 de julho, ouviu 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais, possui margem de erro de dois pontos percentuais e 95% de nível de confiança.
Os dados mostram que 62% dos brasileiros já tinham conhecimento das novas tarifas, enquanto 38% afirmaram desconhecer o assunto, demonstrando que a decisão americana rapidamente ganhou enorme repercussão nacional.
Mais significativo ainda é o impacto percebido pela população. Sessenta e três por cento acreditam que as tarifas irão prejudicar suas famílias, contra 31% que não enxergam consequências diretas. O dado demonstra que o tarifaço deixou de ser uma discussão restrita ao comércio exterior e passou a ser percebido como um problema que poderá afetar preços, empregos e renda.
O levantamento também mediu a disputa narrativa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. Na pergunta sobre quem estaria dizendo a verdade em relação ao tarifaço, 51% afirmaram concordar com Lula, enquanto 30% concordam com Flávio Bolsonaro. Outros 19% não souberam responder.
Quando a pesquisa perguntou sobre a origem das tarifas, 49% concordaram com Lula, que atribui a medida à investigação envolvendo o Pix, enquanto 33% concordaram com Flávio Bolsonaro, que responsabiliza declarações do presidente brasileiro contra os Estados Unidos.
Outro dado chama atenção. Embora Flávio Bolsonaro tenha viajado aos Estados Unidos para discutir o tema, 57% dos brasileiros sequer sabiam da viagem, enquanto apenas 43% tinham conhecimento dela.
A percepção sobre sua capacidade de influenciar Washington também é limitada. Cinquenta e oito por cento acreditam que Flávio Bolsonaro não tem força para convencer o governo americano a rever as tarifas, contra 34% que acreditam nessa possibilidade.
No cenário eleitoral, o impacto foi ainda mais expressivo. Ao serem questionados sobre quem o tarifaço aumenta a vontade de votar, 42% citaram Lula, enquanto 27% apontaram Flávio Bolsonaro. Outros 23% escolheram outro candidato e 8% não responderam.
Talvez o dado mais simbólico esteja relacionado à imagem internacional dos Estados Unidos. Pela primeira vez na série histórica da Genial/Quaest, a avaliação negativa supera a positiva. Quarenta e oito por cento dos brasileiros afirmam ter opinião desfavorável sobre os Estados Unidos, enquanto apenas 34% manifestam opinião favorável.
Os números mostram que a estratégia americana produziu efeitos que provavelmente extrapolaram seus objetivos originais. Uma medida pensada no campo comercial acabou fortalecendo politicamente o governo brasileiro perante parte da opinião pública, ampliou o desgaste da imagem dos Estados Unidos e deslocou o debate para dentro da disputa eleitoral nacional.
O episódio também deixa um importante ensinamento para o Brasil. Independentemente das divergências ideológicas internas, a defesa dos interesses nacionais exige uma política externa pragmática, baseada no diálogo permanente com diferentes correntes políticas americanas. Apostar exclusivamente em afinidades partidárias tende a fragilizar a posição brasileira diante de mudanças de governo em Washington.
No fim das contas, o tarifaço de 25% tornou-se muito mais do que uma disputa comercial. Transformou-se em um episódio que reúne geopolítica, estratégia eleitoral, diplomacia, interesses econômicos e comunicação política. Compreender quem realmente conduz essas decisões, quais interesses estão em jogo e como elas repercutem na opinião pública talvez seja tão importante quanto calcular seus impactos sobre as exportações brasileiras. A pesquisa Genial/Quaest mostra que, ao menos até o momento, a batalha política provocada pelas tarifas parece estar produzindo vencedores e derrotados muito além das mesas de negociação comercial.
Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.