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Rádio Piracicaba

Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Tarcísio lidera, mas o eleitor paulista manda um recado: aprovação não é cheque em branco

 

Ronaldo Castilho

 

A mais recente pesquisa Quaest sobre o cenário eleitoral em São Paulo revela uma situação aparentemente confortável para o governador Tarcísio de Freitas, mas também expõe contradições que não podem ser ignoradas. O levantamento mostra um governador eleitoralmente forte, com vantagem expressiva sobre seus adversários e aprovação majoritária, ao mesmo tempo em que identifica uma sociedade insatisfeita, preocupada com a violência e interessada em mudanças na condução do Estado.

No cenário estimulado para o governo paulista, Tarcísio aparece com 40% das intenções de voto, enquanto Fernando Haddad registra 27%. Os demais nomes apresentados não ultrapassam 2%, e 27% dos entrevistados permanecem indecisos ou afirmam que votariam em branco, anulariam o voto ou não compareceriam. Em uma eventual disputa de segundo turno, o atual governador alcança 47%, contra 30% de Haddad. A diferença é significativa e confirma que Tarcísio inicia a corrida pela reeleição em posição privilegiada.

Essa vantagem não nasceu apenas da força eleitoral do governador. Ela também reflete a dificuldade da oposição em construir uma alternativa capaz de dialogar com diferentes setores da sociedade paulista. Haddad mantém uma base relevante, especialmente entre os eleitores identificados com a esquerda, mas ainda enfrenta resistência fora desse campo político. Enquanto Tarcísio consegue circular entre conservadores, bolsonaristas e parte dos eleitores independentes, seu principal adversário permanece associado de maneira muito forte ao presidente Lula e ao Partido dos Trabalhadores.

A aprovação do governo estadual ajuda a explicar essa vantagem. Segundo a pesquisa, 56% dos entrevistados aprovam o trabalho de Tarcísio, enquanto 31% desaprovam. Além disso, 57% consideram que ele merece ser reeleito, contra 37% que pensam o contrário. Em qualquer democracia, números como esses representam um patrimônio político importante. Um governante que chega ao período eleitoral aprovado pela maioria da população possui mais capacidade de defender suas realizações e controlar a narrativa da campanha.

Entretanto, a mesma pesquisa apresenta um dado que deveria servir de alerta ao Palácio dos Bandeirantes. Apenas 22% dos paulistas desejam que o próximo governador continue exatamente o trabalho que vem sendo realizado. Outros 40% defendem a manutenção do que funciona, mas com mudanças no que não está bom, enquanto 34% querem uma transformação completa. Portanto, embora Tarcísio seja aprovado, existe uma demanda evidente por correções e avanços. O eleitor paulista parece dizer que reconhece resultados, mas não está disposto a conceder um cheque em branco.

Esse aparente paradoxo mostra que aprovação pessoal e satisfação plena com a realidade do Estado são coisas diferentes. Um cidadão pode avaliar positivamente o governador e, simultaneamente, considerar insuficientes as respostas oferecidas em áreas essenciais. Pode reconhecer obras, investimentos e iniciativas administrativas, mas continuar enfrentando dificuldades no atendimento médico, no transporte, na segurança pública ou no custo de vida. A política precisa compreender essa diferença para não transformar bons índices em arrogância eleitoral.

A violência aparece como o problema mais grave de São Paulo para 34% dos entrevistados, seguida pela saúde, mencionada por 22%. Economia, educação, corrupção e desemprego aparecem em patamares menores. O protagonismo da segurança pública demonstra que o medo continua ocupando o cotidiano da população. Não basta apresentar estatísticas ou anunciar operações policiais. O cidadão julga a segurança a partir da realidade de sua rua, do transporte que utiliza, da sensação ao voltar para casa e da confiança de que o Estado estará presente quando for necessário.

A saúde, por sua vez, permanece como uma das maiores fontes de angústia social. Filas, demora na realização de exames, falta de especialistas e dificuldade de acesso aos serviços públicos afetam diretamente milhões de famílias. Quando violência e saúde concentram mais da metade das preocupações apontadas, torna-se evidente que a eleição estadual será decidida menos pelos discursos ideológicos e mais pela capacidade dos candidatos de oferecer respostas concretas às necessidades da população.

Outro dado significativo é que 37% dos entrevistados preferem um governador independente, enquanto 33% desejam alguém aliado de Flávio Bolsonaro e 26% defendem um aliado de Lula. O resultado sugere que uma parcela importante do eleitorado paulista não quer que a disputa estadual seja reduzida a uma extensão automática da polarização nacional. São Paulo possui problemas próprios, características regionais distintas e demandas que não cabem integralmente na confrontação entre lulismo e bolsonarismo.

Tarcísio, entretanto, continua fortemente associado ao campo bolsonarista. A pesquisa mostra que 39% acreditam que ele será o candidato apoiado por Flávio Bolsonaro. Essa vinculação oferece benefícios eleitorais, pois aproxima o governador de uma base conservadora numerosa e mobilizada. Ao mesmo tempo, pode limitar sua capacidade de se apresentar como uma liderança independente, especialmente diante dos eleitores moderados que rejeitam os extremos e esperam uma gestão mais técnica do que ideológica.

Os números da disputa presidencial em São Paulo confirmam a intensidade dessa divisão. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados nos cenários apresentados. Em um deles, ambos registram 30%; em outro, Flávio aparece com 30% e Lula com 29%. O Estado continua sendo um território de confronto entre os dois principais campos políticos do país, mas a fragmentação entre os demais candidatos e o percentual de votos indefinidos mostram que a campanha ainda terá espaço para mudanças.

A pesquisa também revela que 75% dos paulistas que já escolheram um candidato à Presidência consideram sua decisão definitiva. Para governador, esse percentual é de 67%, enquanto 33% admitem mudar de posição. Isso significa que a disputa estadual ainda possui um contingente importante de eleitores disponíveis. A campanha não será apenas uma batalha para conquistar indecisos, mas também para preservar apoios e impedir que acontecimentos políticos, erros de comunicação ou crises administrativas provoquem deslocamentos.

O levantamento da Quaest, realizado entre os dias 21 e 24 de agosto, ouviu 1.800 eleitores paulistas e possui margem de erro de dois pontos percentuais. Como toda pesquisa, representa uma fotografia do momento, não uma previsão definitiva do resultado das urnas. Fotografias eleitorais registram tendências, mas campanhas são movimentos. Debates, alianças, crises, decisões administrativas e fatos inesperados podem alterar o humor da população.

Ainda assim, o retrato atual é bastante claro. Tarcísio de Freitas começa a disputa como favorito, beneficiado pela aprovação de seu governo, pela consolidação no campo conservador e pela dificuldade da oposição em apresentar um nome competitivo. Mas favoritismo não significa vitória antecipada. O mesmo eleitor que aprova o governador exige mudanças, cobra respostas para a violência e a saúde e demonstra desconforto com a submissão da política estadual às lideranças nacionais.

O verdadeiro desafio de Tarcísio não será apenas derrotar Fernando Haddad ou qualquer outro adversário. Será convencer o eleitor de que um segundo mandato não representará acomodação, continuidade automática ou simples reprodução da polarização nacional. Já a oposição precisará ir além da crítica e apresentar uma alternativa concreta, capaz de dialogar com uma sociedade que pode desejar mudanças, mas ainda não encontrou um nome que represente essa expectativa.

 

A pesquisa mostra que o eleitor paulista não está apenas escolhendo entre candidatos. Ele está avaliando se São Paulo deve continuar no mesmo caminho, corrigir parcialmente sua rota ou promover uma mudança profunda. Tarcísio lidera essa corrida, mas o recado das ruas é inequívoco: aprovação ajuda a vencer uma eleição, porém somente resultados, sensibilidade e capacidade de renovação transformam liderança momentânea em confiança duradoura.

Ronaldo Castilho é jornalista, articulista e professor de História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Possui pós-graduação em Jornalismo Digital, é bacharel em Teologia e Ciência Política e tem MBA em Gestão Pública, com ênfase em Cidades Inteligentes. Também é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP).

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