Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 04-09-2026
Por Adriana Passari - @adrianapassari
O menino e o córrego do dragão
O córrego do dragão estava praticamente morto, um filete de água, que cortava o bairro de fora a fora e já não tinha a grandeza que fora um dia. Mas as histórias sobre o córrego continuavam vivas e intensas como as suas águas nos tempos mais tenebrosos da região. É que aquela zona de mata ciliar deteriorada, antigamente acolhia uma área de vasta vegetação nativa. Árvores, arbustos, folhagens espalhadas, compunham um cenário meio assustador. Acontece que o bairro das Vilas Boas foi crescendo às suas margens sem que houvesse um plano de urbanização ou preservação no local.
À medida que as ruas aumentavam ao seu redor, aumentava também o contraste entre as luzes dos postes de fraca iluminação e as sombras projetadas por galhos e folhas entre uma margem e outra.
Não havia ponte ligando as margens, até que certo dia, apareceu sem ninguém saber explicar, uma dupla de troncos de árvores atravessadas que serviam perfeitamente para uma pessoa dotada de coragem atravessar a pé. Ninguém reivindicou a autoria daquela obra que nem parecia humana. Moradores de um lado e de outro lado se perguntavam, em qualquer oportunidade, sobre quem teria feito tal feito. Se não fosse a singela pinguela, a divisão do bairro continuaria seguindo quilômetros distante sem se cruzar uma única vez.
De dia, nos meses de baixa correnteza, a travessia pelos troncos era um desafio tentado por poucos. Mas à noite, ninguém em sã consciência sequer se atrevia a olhar para os lados do córrego. Até que apareceu o menino.
O garoto era franzino e feioso. Filho de pai viúvo, pouco dado a conversas, pra piorar era maltratado na escola por coleguinhas e menosprezado por professores com pouca paciência ou vocação para o magistério. Certo dia, enquanto tentava esconder sua insignificância num canto do pátio da escola, ouviu seus colegas de turma comentando sobre o dragão que habitava no córrego. Uns desafiavam os outros a cruzarem a ponte de madeira numa noite de lua minguante, sozinhos e enfrentarem o dragão.
O menino sentiu-se também desafiado. Poderia provar seu valor, granjear algum respeito e quem sabe melhorar sua vida miserável. Resolveu que seria ele o corajoso capaz de atravessar os troncos à noite. Como testemunha ele escolheu seu cão Aroldo e esperou três luas até a minguante chegar. Muniu-se de toda coragem que conseguiu, com o coração batendo rápido e as pernas bambeantes, foi enfrentar o breu e o dragão.
Na manhã seguinte o menino não apareceu na escola. Nem nas outras manhãs. E para quem acredita que o menino morreu devorado pelos dentes afiados e a língua fétida do dragão do córrego, eu peço só um pouquinho de paciência pra me deixar terminar a história.

Acontece que o garoto apavorado, acabou escorregando do tronco, caiu nas águas do córrego e ainda ficou enganchado pela camisa presa num galho, passando ali várias horas molhado tremendo de medo e de frio. Foi salvo porque Aroldo, esperto, latiu bem alto quando escutou o pai do menino chamando por ele feito um doido preocupado com o sumiço do filho. Depois disso caiu de cama com febre e uma forte gripe por vários dias.
Ao voltar para a escola foi reverenciado pelos meninos e admirado pelas meninas por sua bravura. Foi chamado na diretoria e ouviu um sermão quase tão colossal quanto aquele que ouviu de seu pai. Apesar das punições, castigos e até dos pesadelos que herdou dessa aventura, ele acabou sendo conhecido como o herói que enfrentou o dragão, sem nem ao menos ter visto um lagarto sequer.
Ouça a história na voz de Adriana Passari:

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