Mercado de Carbono e a Economia da Transição Climática
Por Maria Paula Vieira Cicogna, professora do MBA em ESG e Negócios Sustentáveis USP Esalq
A crise climática não é um tema novo, tampouco inesperado. O que ainda insistimos em tratar como novidade é a necessidade de transformar profundamente a forma como produzimos, consumimos e atribuímos valor econômico às nossas ações. A transição climática não acontecerá apenas por boa vontade ou conscientização individual, ela depende de decisões econômicas concretas, capazes de premiar quem reduz impactos ambientais e penalizar quem insiste em modelos insustentáveis.
Durante décadas, operamos como se os recursos naturais fossem infinitos, como se vivêssemos em um sistema aberto, onde sempre haveria uma nova fronteira a ser explorada e um “fora” para descartar resíduos. Essa lógica ainda orienta grande parte da produção, do consumo e até da forma como medimos crescimento econômico. No entanto, a realidade é outra. Vivemos em um sistema fechado. A Terra é uma única nave, com estoques limitados de matéria e energia, interligados de forma indissociável.
Enquanto persistirmos na chamada “economia do cowboy”, baseada na expansão contínua da produção e do consumo, aprofundaremos os problemas ambientais, sociais e econômicos que já enfrentamos. A economia do futuro, a economia do astronauta, exige uma mudança de referência, o sucesso não pode mais ser medido pela quantidade produzida ou consumida, mas pela capacidade de manter e qualificar nosso estoque de capital natural, humano e produtivo.
Nesse contexto, o mercado de crédito de carbono surge como um dos instrumentos capazes de viabilizar economicamente essa transição. Ao atribuir valor financeiro à redução ou à captura de emissões, criam-se incentivos para mudanças nos processos produtivos, para a conservação florestal, para o uso de energias renováveis e para modelos agrícolas mais sustentáveis. Sem esse incentivo econômico, mudanças relevantes não ocorrerão na velocidade necessária.
No Brasil, temos avanços importantes, como o mercado regulado de CBIOs no setor de biocombustíveis, mas ainda enfrentamos desafios significativos, especialmente no mercado voluntário de crédito de carbono, marcado por baixa transparência, concentração excessiva e riscos de greenwashing. Esses problemas afetam a credibilidade do mercado e afastam investimentos essenciais.
A transição climática não diz respeito apenas a empresas ou governos. É uma responsabilidade coletiva. Os problemas da nossa “espaçonave Terra” já estão no presente, refletidos na degradação ambiental que vemos diariamente. Enfrentá-los exige maturidade econômica, coragem política e mecanismos financeiros sólidos que alinhem interesse privado e interesse coletivo. O mercado de crédito de carbono é parte desse caminho, mas ele precisa ser aprimorado, regulado e levado a sério.
Serviço – Artigo de Opinião
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- Autora: Maria Paula Vieira Cicogna, professora do MBA em ESG e Negócios Sustentáveis USP Esalq