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Artigo - Pecege - A integridade além do compliance: por que a liderança define a ética nas organizações

Publicada em: 16/04/2026 09:40 -

A integridade além do compliance: por que a liderança define a ética nas organizações

Por Roberta Porto, Professora Embaixadora do MBA em Compliance & ESG

Desde a Lava Jato e especialmente após a criação da lei anticorrupção, o debate sobre compliance ganhou força no Brasil. Empresas passaram a investir em auditorias, controles internos, políticas de prevenção e canais de denúncia para fortalecer a governança. A pesquisa “Integridade Corporativa no Brasil: evolução do compliance e das boas práticas empresariais nos últimos anos” comprovou isso ao aferir que 73% das empresas ouvidas planejaram investir em treinamentos para adequarem-se a conformidades legais até o fim de 2024. Esses mecanismos são importantes para reduzir riscos jurídicos, preservar reputações e criar ambientes de negócios mais responsáveis. As organizações públicas e privadas têm papel fundamental nesse processo, e não há dúvidas de que regras bem desenhadas ajudam a orientar decisões e evitar desvios.

No entanto, a integridade vai além de um conjunto de processos. O centro da ética organizacional está no comportamento das pessoas. Valores, propósito, autocontrole e coerência interna são fatores que nenhum manual técnico substitui. Para que a integridade funcione de forma real, a liderança precisa assumir seu papel como modelo. Quando gestoras e gestores vivem a ética em suas escolhas diárias, a cultura se fortalece de forma orgânica e duradoura.

A ausência desse alinhamento costuma gerar rupturas graves. O caso da Americanas, que revelou um rombo contábil bilionário e levou o Ministério Público Federal a denunciar ex-executivos por manipulação de balanços, expôs que controles não impedem desvios quando o topo da organização opera distante da ética. Outro exemplo foi o colapso do Banco Master, cuja liquidação evidenciou práticas financeiras irregulares e fragilidades na governança da instituição. Esses episódios colocam uma pergunta incômoda: quando a direção contraria princípios éticos, um programa de compliance consegue, sozinho, evitar danos?

Pesquisas na área de ética corporativa reforçam que políticas e controles são necessários, porém insuficientes. Sem um ambiente que estimula a integridade, programas de compliance se tornam formais, burocráticos e pouco transformadores. Já em culturas guiadas por propósito, colaboração e transparência, as regras deixam de ser limitações e passam a ser ferramentas para decisões responsáveis.

Integridade não é apenas um campo técnico. É uma escolha cotidiana que envolve coerência, responsabilidade e compromisso coletivo. Organizações bem intencionadas precisam mais de lideranças éticas do que de sistemas sofisticados criados para vigiar quem poderia agir corretamente se tivesse apoio e direção adequados. Quando líderes inspiram pelo exemplo, estruturas de compliance deixam de ser escudos e se tornam pilares de uma cultura sólida, madura e confiável.

 

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