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Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 27-03-2026

Publicada em: 27/03/2026 07:26 -

Por Adriana Passari - @adrianapassari

 

Vai pela sombra

 

Era uma senhora bem disposta, mandona, dura na queda na verdade. Tinha uma saúde irritantemente boa, diriam os seus desafetos, que nem eram tantos assim. A nora, que tinha todos os motivos para reclamar, era quase uma santa de tanta bondade. Ignorava as caras fechadas da sogra e aceitava-lhe os conselhos em forma de indireta sem qualquer resquício de malícia. Apenas acatava que a velha senhora, mãe de seu esposo, era apegada ao comando daquele lar. Ensinava a ariar as panelas com afinco e colocá-las ao sol para dar mais brilho.

E assim as panelas resplandeciam até nos dias mais nublados que vez ou outra dominavam o clima na casa. Dona Antonia, como todos a tratavam, reinava, absoluta, do alto de seus 1,81 m de altura e 70 kg de peso. Aos netos dedicava seu amor com severidade, instruindo sempre sobre como andar, o que comer, o que vestir, como se comportar.

Quando em seus domínios, até os amigos dos netos entravam na linha dura. Era isso ou a serventia da casa, a porta da rua. Apesar da dureza da fachada, Dona Antonia não repelia ninguém, porque no meio dos comandos espartanos, deixava entrever “à sua maneira” um excessivo zelo pelo bem estar e segurança de todos ao redor.

 A neta caçula, embora já com idade para percorrer os quatro quarteirões e meio até a escola muito bem sozinha ou com amigos, era acompanhada pela avó todos os dias. Detalhe importante era que a pesada mochila com livros e cadernos da criança iam sobrepesando os ombros da senhora, enquanto a pequena malandrinha percorria o trajeto saltitando livre, leve e solta. Mas não por preguiça da jovem, apenas porque a avó não permitia que aquele peso atrapalhasse o seu crescimento, pelo menos era isso que ela argumentava todas as vezes que alguém tentava interferir, até o dia que desistiram de tentar. Já nas imediações da escola, avistando o portão alguns metros logo mais à frente, entregava a mochila e dizia: vai pela sombra. Era assim que ela sempre se despedia de amigos e familiares.

Desejava a sombra, fresca e salutar, confortável, para arejar os caminhos. Era sua forma de acarinhar quem quer que fosse. Dona Antonia foi guerreira, aguentou altos trancos da vida. Segurou a viga do teto das estruturas familiares por ocasião da perda precoce de um dos entes mais queridos. Mas não sem sofrer avarias nas próprias fundações.

Nunca mais foi a mesma. A saúde, antes de ferro, já não era mais assim, tão inabalável. Passou a demonstrar uma discreta fragilidade, que já se fazia estranhar pelos mais chegados. O peso da idade e da vida foi arqueando aqueles ombros antes retilíneos. Foi fazendo seu caminho, com autonomia, como sempre escolheu viver. Até o dia que ela seguiu, pela sombra, e não voltou mais.

 

Ouça a história na voz de Adriana Passari

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