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Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Publicada em: 06/01/2026 14:37 -

Gentileza não é fraqueza: é ética

 

Ronaldo Castilho

 

Vivemos um tempo paradoxal. Nunca estivemos tão conectados por tecnologias e, ao mesmo tempo, tão distantes no modo como nos relacionamos. O individualismo contemporâneo, alimentado por uma lógica de desempenho, competição e autopromoção, tende a reduzir o outro a obstáculo, meio ou plateia. Nesse cenário, a filosofia do cuidado surge não como um sentimentalismo ingênuo, mas como uma resposta ética, política e existencial: cuidar é reconhecer a interdependência que nos constitui e recolocar a dignidade humana no centro da vida comum.

Desde a Antiguidade, o cuidado aparece como eixo da reflexão filosófica. Em Sócrates, o “cuidado de si” não é narcisismo; é um trabalho interior orientado ao bem, inseparável do cuidado com a pólis. Conhecer-se e cuidar de si significava tornar-se melhor para conviver melhor. Aristóteles aprofunda essa intuição ao afirmar que o ser humano é um “animal político”: realizamo-nos na vida compartilhada. A virtude, para ele, não floresce no isolamento, mas na prática cotidiana da amizade cívica, da justiça e da prudência — virtudes que exigem atenção ao outro.

Na tradição cristã medieval, o cuidado ganha densidade moral. Agostinho de Hipona associa o amor (caritas) à ordem do coração: amar bem é ordenar desejos de modo que ninguém seja usado como coisa. Tomás de Aquino integra razão e compaixão ao sustentar que a lei moral se orienta ao bem comum. Cuidar, aqui, não é apenas uma atitude privada, mas um princípio que estrutura a justiça social.

Com a modernidade, o sujeito ganha centralidade — e, com ela, o risco do isolamento. René Descartes inaugura a ênfase no “eu” pensante, necessária ao avanço científico, mas frequentemente lida de forma reducionista, como se a autonomia fosse autossuficiência. Em reação, Immanuel Kant estabelece um limite ético decisivo: jamais tratar o outro apenas como meio, sempre como fim em si. O respeito, fundamento do cuidado, torna-se critério universal da moralidade.

No século XX, o cuidado emerge como categoria central. Martin Heidegger descreve o cuidado (Sorge) como estrutura do existir: somos seres-no-mundo que se importam. Cuidar não é opcional; é constitutivo. Hannah Arendt recoloca o cuidado na esfera pública ao defender a responsabilidade pelo mundo comum. Quando abandonamos o cuidado com o espaço público e com as pessoas, abrimos caminho à banalização do mal — não por monstruosidade, mas por indiferença.

A filosofia contemporânea amplia esse horizonte. Emmanuel Levinas desloca o centro da ética para o rosto do outro: a vulnerabilidade alheia me convoca antes de qualquer cálculo. O cuidado nasce do encontro, não do interesse. Carol Gilligan e Nel Noddings formulam a ética do cuidado como alternativa às morais abstratas, destacando a atenção, a responsabilidade e a relação. Cuidar é uma prática situada, que reconhece dependências reais e responde a elas com sensibilidade e compromisso.

Trazer essas ideias para os dias atuais é urgente. A cultura da performance — likes, rankings, métricas — incentiva a arrogância e a prepotência como sinais de sucesso. Porém, tais posturas não somam; dividem. Onde a arrogância entra, a escuta sai. Onde a prepotência manda, a confiança se dissolve. O resultado é um empobrecimento das relações e uma sociedade mais fragmentada. A filosofia do cuidado propõe o caminho oposto: educar para a gentileza, cultivar a escuta, reconhecer limites e dependências. Não fazemos nada sozinhos — nem na família, nem no trabalho, nem na vida pública.

Esse contraponto é especialmente visível no modo como nos relacionamos. Relações baseadas apenas em utilidade são frágeis; rompem-se ao primeiro conflito. Já relações sustentadas pelo cuidado atravessam divergências porque se ancoram no respeito. Ser educado, tratar com gentileza, agradecer, pedir desculpas — gestos simples — não são formalidades vazias, mas práticas éticas que constroem confiança. A filosofia do cuidado lembra que a convivência não é um jogo de soma zero. Ao contrário: quando cuidamos, todos ganham.

No campo político e institucional, o cuidado desafia a lógica da indiferença. Políticas públicas orientadas pelo cuidado priorizam os mais vulneráveis, fortalecem serviços essenciais e promovem o bem comum. Isso não significa paternalismo, mas corresponsabilidade. Cuidar é criar condições para que pessoas e comunidades floresçam. É reconhecer que a eficiência sem humanidade produz exclusão; e que a técnica sem ética gera deserto social.

No cotidiano, o cuidado se traduz em escolhas concretas: ouvir antes de responder; cooperar em vez de competir; corrigir sem humilhar; liderar servindo. Paulo Freire já lembrava que ninguém educa ninguém sozinho — educamo-nos em comunhão. O aprendizado, como a vida, é relacional. A arrogância fecha portas; a gentileza as abre.

A filosofia do cuidado não idealiza o ser humano. Reconhece conflitos, limites e interesses. Mas insiste que a dignidade não é negociável. Em um mundo marcado por polarizações, cuidar é um ato de coragem: exige desacelerar, escutar, responsabilizar-se. Exige admitir que dependemos uns dos outros e que essa dependência não nos diminui — nos humaniza.

Concluir defendendo o cuidado é afirmar uma ética da esperança prática. Não se trata de grandes discursos, mas de hábitos cotidianos que, somados, transformam ambientes. A arrogância e a prepotência podem até impressionar por um instante; porém, não constroem nada duradouro. O cuidado, ao contrário, edifica relações, fortalece comunidades e sustenta a vida comum. Em tempos de individualismo exacerbado, cuidar é um gesto profundamente filosófico — e radicalmente humano.

Ronaldo Castilho é Jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. É licenciado em História e Geografia, bacharel em Teologia e Ciência Política, e possui MBA em Gestão Pública com ênfase em Cidades Inteligentes.

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