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Rádio Piracicaba

Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

O medo de outro Bolsonaro foi maior que a rejeição a Lula

 

Ronaldo Castilho

 

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 permite uma interpretação que vai além da disputa entre esquerda e direita: para uma parcela decisiva do eleitorado, o medo de devolver o comando do país à família Bolsonaro pesou mais que o antipetismo e o antilulismo. Isso não significa que desapareceram as críticas ao presidente ou ao seu partido. Significa que, diante das alternativas, houve quem considerasse mais urgente impedir o retorno de um projeto político do que expressar sua rejeição ao outro.

Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. O resultado confirma uma maioria eleitoral, mas também revela um país profundamente dividido. Interpretá-lo apenas como aprovação irrestrita ao governo seria reduzir a complexidade das escolhas feitas nas urnas. Uma vitória pode reunir entusiasmo, identificação, esperança, desconfiança e, sobretudo, receio do adversário.

É nesse encontro de sentimentos que se encontra a principal leitura deste artigo: o antibolsonarismo conseguiu ultrapassar as fronteiras do petismo. Eleitores não precisavam se tornar admiradores de Lula para concluir que preferiam sua permanência à chegada de outro Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Votar em alguém também pode significar estabelecer um limite ao que se considera perigoso para o futuro.

Essa interpretação não autoriza afirmar que todos os eleitores de Lula tiveram a mesma motivação, muito menos que todos os eleitores de Flávio sejam contrários à democracia. O voto tem razões diversas. Entretanto, a defesa democrática ofereceu uma linguagem comum a pessoas que discordam sobre economia, costumes, partidos e até sobre o próprio presidente. Quando a preocupação com as regras da convivência supera as divergências sobre quem deve governar, uma candidatura pode conquistar apoio para além de sua base habitual.

A juventude merece lugar de destaque nessa mobilização. Jovens que foram às ruas defender a democracia deram presença, voz e energia a uma campanha que precisava conversar com o futuro. No discurso após a vitória, o próprio Lula agradeceu à juventude pela participação nas manifestações em defesa democrática. Esse reconhecimento ajuda a compreender o significado político de uma geração que decidiu participar, em vez de apenas assistir.

Os jovens universitários merecem ser enaltecidos nesse movimento. A universidade tem uma responsabilidade pública que ultrapassa a formação profissional: produzir conhecimento, estimular o pensamento crítico e sustentar o direito de questionar. Quando estudantes levam essas preocupações para as ruas, ajudam a transformar conceitos discutidos em sala de aula em compromissos com a vida coletiva. A liberdade de ensinar, pesquisar, discordar e construir projetos de vida depende de instituições que aceitem a pluralidade.

Há uma contribuição de Hannah Arendt especialmente útil para compreender essa força. Em Sobre a Violência, a pensadora relaciona o poder à capacidade humana de agir coletivamente. Aplicada à mobilização democrática, essa reflexão permite perceber que a força política nasce também do encontro entre cidadãos que descobrem uma causa compartilhada. A juventude reunida em torno da defesa da democracia expressa essa capacidade de transformar inquietação individual em ação pública.

Na outra ponta da vida, os idosos também ofereceram uma imagem poderosa de cidadania. Lula relatou ter visto pessoas com dificuldades de locomoção sendo levadas por familiares, inclusive pelos netos, para votar. Esses relatos têm uma dimensão que ultrapassa a disputa eleitoral: mostram o esforço para continuar participando das decisões nacionais mesmo quando o corpo impõe obstáculos.

O pedido de um pai, uma mãe, um avô ou uma avó para que filhos e netos os levem à seção eleitoral merece respeito. Quando motivado pela defesa da democracia, esse gesto aproxima memória e futuro. Quem viveu outras fases da história brasileira pode reconhecer, com particular intensidade, o valor de escolher governantes livremente. Ao acompanhar um idoso até a urna, a geração mais nova também recebe uma lição: direitos precisam ser exercidos para permanecerem vivos.

A redução das abstenções reforça a importância da participação. Segundo o TSE, o índice caiu de 21,08% no primeiro turno para aproximadamente 19,2% no segundo, quando 128,2 milhões de eleitores compareceram às urnas. O dado merece celebração democrática. Ele mostra que mais pessoas participaram da decisão, embora, isoladamente, não permita determinar em quem votaram nem quais razões as levaram a sair de casa.

O cientista político contemporâneo Jan-Werner Müller oferece outra contribuição relevante. Em O que é populismo?, ele identifica no antipluralismo um elemento central do fenômeno: a pretensão de que apenas um líder ou movimento representa o povo verdadeiro. Seu argumento ajuda a compreender por que a defesa democrática exige rejeitar a ideia de que os adversários sejam cidadãos menos legítimos. Essa exigência vale para qualquer governo e para qualquer partido.

À luz dessas reflexões, minha leitura é que parte dos brasileiros fez uma escolha de contenção. A rejeição ao PT continuou existindo, mas perdeu prioridade diante do receio associado ao retorno da família Bolsonaro ao poder. Houve quem votasse em Lula mantendo críticas a Lula. Houve quem escolhesse o presidente para preservar a possibilidade de continuar cobrando, protestando e discordando dele.

Essa vitória, portanto, impõe responsabilidade. Lula precisa reconhecer que recebeu votos que ultrapassam sua militância e sua aprovação pessoal. Quem votou por preocupação com a democracia não entregou uma folha assinada em branco. Espera respeito às instituições, disposição para o diálogo, políticas públicas eficazes e compromisso com as liberdades. A mobilização que ajudou a elegê-lo conserva o direito de fiscalizá-lo.

A juventude levou às ruas a disposição de construir o amanhã. Os idosos que fizeram questão de votar lembraram o valor de poder decidir. Entre essas gerações, formou-se uma mensagem que o próximo governo precisa ouvir: a democracia pertence à sociedade.

O medo de outro Bolsonaro pode ter sido maior que a rejeição a Lula. Agora, cabe ao presidente transformar essa escolha em confiança. Porque o povo que se mobiliza para impedir um retorno também sabe se levantar para cobrar um caminho melhor.

Ronaldo Castilho é jornalista, articulista e professor de História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Possui pós-graduação em Jornalismo Digital, é bacharel em Teologia e Ciência Política e tem MBA em Gestão Pública, com ênfase em Cidades Inteligentes. Também é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP).

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