Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 23-10-2026
Por Adriana Passari - @adrianapassari
Sucessão
Em um reino não tão distante havia um rei de nome Saul. Ele tinha três filhos.
O justo, o bom e o fraco. Baltazar era um deles. Era um rei minimamente eficiente. Fazia o que podia e o que queria. Nem sempre as duas coisas andavam juntas. O povo, amortecido pelos anos de reinado inexpressivo, nem tão ruim que se pudesse reclamar desordenadamente, nem tão bom que alimentasse a esperança.
Saul de uns tempos pra cá, vendo os meninos crescidos, andou tendo pensamentos complicativos. Sabia que um dia, ainda que distante, teria que passar a coroa e a cadeira para um deles. Um dia, por cima do seu cadáver, um deles há de continuar seu legado. E isso o estava afligindo ali, naquele tempo. Nenhum dos seus filhos seguia seus passos como deveria. Sentia um distanciamento das suas crias e nunca antes isso o incomodou.

Mas agora sentia um formigamento estranho atrás das orelhas como um alerta. Tem perigo rondando a fera. E isso o estava inquietando. Acirrou os olhos para o próprio ninho a fim de entender as reais intenções ao seu redor. Passou a agir mais estranhamente do que o estranho já considerado seu normal. Os influentes do reino sentiram que a maré estava mudando e cada um articulava a seu modo para navegar na onda que lhe fosse mais favorável. O clima pesou e a população ficou ainda mais cautelosa.
Feito cordeiros acuados. O rei pressentia uma traição. Isolou-se. Afastou de si os principais suspeitos, aqueles que antes mais confiava. Vasculhou intimidades de seus aliados mais célebres. Conseguiu o que menos queria. Criou inimigos. Feridos de morte, juraram vingança.
O que antes era prenúncio, tornou-se destino. Foi alvejado pela própria sina que desenhou em seus pensamentos. Aos pés da cova, cavada rasa por imerecimento, em pé, estava seu filho. Coroado. O rei morreu. Viva o rei. Vida longa ao rei Baltazar.
Ouça a história na voz de Adriana Passari:

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