Artigo - Barjas Negri - Educação se constrói com planejamento, parceria e continuidade
Educação se constrói com planejamento, parceria e continuidade
Barjas Negri
Quando encerrei meu segundo mandato como prefeito de Piracicaba, no final de 2012, recebi do então governador Geraldo Alckmin o convite para assumir a presidência da Fundação para o Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo, a FDE. Aceitei aquela missão consciente da dimensão do desafio e da responsabilidade de colaborar com uma das maiores redes públicas de ensino do país.
Presidi a FDE entre março de 2013 e março de 2016. Naquele período, a Fundação era responsável por transformar em ações concretas grande parte das políticas definidas pela Secretaria de Estado da Educação. Cabia à instituição cuidar da construção, ampliação, reforma e manutenção das escolas estaduais, além da aquisição de mobiliário, equipamentos, materiais pedagógicos, livros, computadores e suprimentos necessários ao funcionamento de aproximadamente 5 mil unidades escolares.
Administrar uma estrutura dessa dimensão exige planejamento, capacidade técnica e diálogo permanente. Não basta anunciar uma obra ou criar um programa. É necessário elaborar projetos, organizar processos licitatórios, acompanhar contratos, fiscalizar serviços e garantir que os investimentos públicos cheguem efetivamente aos estudantes, professores e comunidades escolares.
Um dos maiores desafios que recebi foi acelerar o Programa Creche-Escola, desenvolvido em parceria com as prefeituras paulistas. A educação infantil é responsabilidade dos municípios, mas o Governo do Estado compreendeu que precisava colaborar com a ampliação das vagas, principalmente diante das dificuldades financeiras e técnicas enfrentadas por muitas cidades.
Quando chegamos à FDE, havia protocolos de intenções para a construção de 231 creches. Em poucos meses, o programa avançou para acordos com 315 municípios, envolvendo 439 unidades previstas. Para tornar o processo mais rápido e eficiente, a Fundação desenvolveu três projetos executivos padronizados, com capacidade para atender 70, 130 ou 150 crianças.
O modelo de parceria era objetivo: as prefeituras disponibilizavam os terrenos e conduziam os procedimentos administrativos e licitatórios, enquanto o Governo do Estado, por meio da FDE, financiava as obras e a aquisição dos equipamentos. Essa organização permitiu estruturar uma política com potencial para viabilizar até 670 creches, gerar aproximadamente 70 mil vagas e mobilizar investimentos próximos de R$ 1 bilhão.
Sempre tivemos consciência de que um programa dessa dimensão não seria concluído dentro de apenas uma gestão. A escolha dos terrenos, a aprovação dos projetos, as licitações, a execução das obras e a prestação de contas exigiriam vários anos. Ainda assim, era fundamental lançar bases sólidas para que o projeto pudesse continuar independentemente das mudanças administrativas.
O balanço acumulado, praticamente concluído em 2025, confirmou a importância daquela iniciativa. Ao longo de quase 13 anos, aproximadamente 600 creches foram entregues, criando condições para atender cerca de 62 mil crianças de zero a cinco anos. Os investimentos estaduais alcançaram R$ 976,5 milhões em valores atualizados.
Esses resultados não pertencem exclusivamente a uma pessoa ou a um único período de governo. São fruto do trabalho contínuo de servidores, engenheiros, arquitetos, técnicos, educadores, prefeitos e equipes municipais. Entretanto, tenho orgulho de ter participado de uma etapa decisiva, quando o programa ganhou escala, planejamento e condições para avançar por todo o Estado.
Durante nossa passagem pela FDE, também trabalhamos na conservação e modernização das escolas estaduais, na distribuição de materiais e equipamentos e na continuidade de programas importantes. A experiência à frente da Fundação confirmou uma convicção que sempre orientou minha vida pública: a educação não pode ser administrada com improvisações ou soluções imediatistas. Seus resultados dependem de planejamento, continuidade e cooperação entre os diferentes níveis de governo.
Também é preciso compreender que construir uma escola ou uma creche não representa apenas levantar paredes. Cada nova unidade significa oferecer segurança às famílias, melhores condições de desenvolvimento às crianças e novas oportunidades para que mães e pais possam trabalhar sabendo que seus filhos estão sendo atendidos adequadamente.
Governos passam, mas as boas políticas públicas precisam permanecer. Uma administração responsável não trabalha apenas para aquilo que poderá inaugurar. Muitas vezes, sua principal contribuição está em planejar, iniciar e deixar estruturados projetos que serão concluídos por outras gestões.
Foi esse espírito que procuramos imprimir à FDE. Plantamos projetos, organizamos parcerias e ajudamos a consolidar investimentos cujos resultados continuaram aparecendo durante muitos anos. Essa é a verdadeira dimensão do serviço público: trabalhar no presente com responsabilidade suficiente para transformar o futuro.
Barjas Negri foi ministro da Saúde e prefeito de Piracicaba por três gestões

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