Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 02-10-2026
Por Adriana Passari - @adrianapassari
As 9 dores
Ela se casou muito jovem, da pior maneira possível: cega por uma paixão injustificada pelo não tão jovem Sandro. Ele apareceu em sua vida como um príncipe galante entra na história de uma plebeia desconhecida: cheio de si e de certezas, tão injustificadas quanto os sentimentos que despertou.
Ele era tão cheio de si que se bastava, quase sem espaço para aquela devoção avassaladora que lhe foi dedicada, mas acabou envaidecido pela inebriante sensação de idolatria irradiada pela sua eleita. Embora fosse alertada sobre os excessos daquela erupção de emoções, ela se viu arrastada feito lava vulcânica montanha abaixo devastando tudo que estava no caminho.
E assim começou a vida do casal. No começo parecia que as coisas poderiam dar certo, mas só pareciam. Ele continuou sendo ele, e ela começou a perder o véu da cegueira para as atitudes não tão elogiáveis dele.
Nenhuma surpresa para o time daqueles que tentaram acender o farol da realidade antes que ela entrasse naquele fatídico nevoeiro. E assim a relação foi se arrastando por alguns anos sem brilho, sem luz e sem frutos. Ele cobrava dela uma gravidez que não vinha e ela secretamente, antecipando os rumos desastrosos da sua escolha juvenil, tomava pílulas anticoncepcionais.
Foi tomada de fortes enxaquecas a cada nova discussão do casal. Não achava tratamento eficaz, mas sabia perfeitamente o diagnóstico, mesmo sem precisar de exames. Ela navegou até o limite das suas forças, quando chegou a hora do basta. Em plena farmácia veio a epifania, quando ela comprava mais uma caixa do medicamento que a aliviava nos momentos das dolorosas crises.
Duas opções: uma com nove comprimidos e a outra versão mais econômica com dezoito.
Apostou na de menor quantidade. Daria para a causa das suas dores somente mais nove chances. E foi assim que começou o fim. Ela guardou a caixa do remédio na cabeceira da cama junto de uma caneta esferográfica novinha de tinta preta forte. E assinalou um compromisso de lealdade àqueles comprimidos. O último deles seria o fim da sua tolerância.

Os dias foram passando e a cada grosseria transformada em dor de cabeça, ela silenciava, tomava o comprimido e encerrava o debate anotando na caixinha um pequeno x. Egocêntrico que só, ele não percebeu que estava ali também marcado o seu destino.
Ao chegar o x de número 9, o último comprimido da caixinha, ela silenciosamente se despediu da sua falida história de amor. No dia seguinte ele recebeu em seu trabalho, os documentos que já estavam preparados pela sua advogada, com todos os detalhes da partilha dos bens do casal, uma mala com seus pertences pessoais mais urgentes e algumas roupas.
Metade da conta conjunta já estava transferida para uma conta pessoal exclusiva. A chave da porta e o controle do portão devidamente trocados. Também bloqueou o número dele no celular. Nunca mais se falaram a não ser por meio dos advogados. Após todas as pendências serem resolvidas, ela não teve mais crises de enxaqueca.
Ouça a história na voz de Adriana Passari:

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