O rádio que mora dentro da gente
Por Vitor Prates
Há sons que o tempo não consegue apagar.
O chiado de um rádio procurando uma estação. A vinheta que anuncia o começo de um programa. A voz do locutor dizendo “bom dia”. A música que toca justamente quando estamos pensando em alguém. O gol narrado com emoção. A notícia que interrompe a rotina. E aquela voz que, mesmo sem saber quem está do outro lado, parece conversar diretamente com a gente.
Isso é rádio.
Neste 25 de setembro, Dia do Rádio, mais do que lembrar uma data, é preciso lembrar uma história. Uma história feita de vozes, microfones, estúdios, transmissores, discos, fitas, equipamentos, profissionais e, acima de tudo, ouvintes.
O rádio chegou ao Brasil em 1922 e, desde então, nunca mais saiu da vida do brasileiro. Entrou nas salas das casas, acompanhou o café da manhã, esteve presente nas cozinhas, nos quartos, nos bares, nas oficinas, nos caminhões, nos ônibus e nos automóveis.
Foi companheiro de gerações.
Antes da televisão ocupar espaço nas salas, era o rádio que reunia a família. Era através dele que se conhecia o mundo. As notícias chegavam pela voz de alguém que, muitas vezes, o ouvinte nunca havia visto.
E talvez esteja aí a magia.
O rádio não precisa de imagem para criar imagens.
Quando um narrador descreve um gol, enxergamos o campo. Quando um jornalista conta uma história, imaginamos a cena. Quando uma música começa, somos transportados para outro tempo. Quando uma voz conhecida nos deseja um bom dia, sentimos que alguém está ali.
O tempo passou. A tecnologia mudou. Vieram a televisão, a internet, as redes sociais, os podcasts e tantas outras formas de comunicação.
Mas o rádio continuou.
Mudou de aparelho, ganhou a internet, entrou no celular e passou a viajar pelo mundo. Mas preservou aquilo que talvez seja sua maior força: a capacidade de fazer companhia.
Em Piracicaba, essa história também tem muitas páginas. São vozes que fizeram parte da vida da cidade, profissionais que dedicaram décadas ao microfone e ouvintes que transformaram emissoras em parte de suas próprias histórias.
Eu também faço parte dessa caminhada. São mais de duas décadas vivendo o rádio, aprendendo que cada microfone aberto representa uma responsabilidade, mas também uma oportunidade: a de chegar até alguém.
E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos anos, ainda exista emoção quando a luz vermelha acende e o microfone está aberto.
Porque naquele instante não estamos falando para uma máquina.
Estamos falando com pessoas.
Pessoas que podem estar sozinhas. Pessoas que precisam de uma notícia. Que esperam uma música. Que querem saber o resultado do jogo. Que estão trabalhando. Dirigindo. Caminhando. Ou simplesmente procurando uma voz para fazer companhia.
É por isso que o rádio não envelhece.
Ele se reinventa.
E enquanto existir alguém do outro lado disposto a ouvir, haverá alguém deste lado disposto a falar.
Neste Dia do Rádio, minha homenagem vai para todos aqueles que construíram essa história e para aqueles que continuam escrevendo novos capítulos.
Mas vai, principalmente, para o ouvinte.
Porque uma emissora pode ter estúdio, microfone, tecnologia e programação.
Mas é o ouvinte quem dá sentido a tudo isso.
No fundo, rádio é muito mais do que som.
Rádio é memória.
Rádio é companhia.
Rádio é emoção.
Rádio é história.
E algumas histórias, felizmente, a gente nunca deixa de ouvir.

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