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Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 18-09-2026

Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 18-09-2026

Por Adriana Passari - @adrianapassari

Todas as vidas

 

O marido entrou na cozinha e a viu cabisbaixa, disfarçadamente enxugando os olhos.

                      O que foi? disse ele.

                      Me abrace, disse ela.

                      Por quê? disse ele já a aconchegando em seus braços.

                      Porque eles terminaram, disse ela apontando para a televisão onde a série dramática mostrava uma mocinha chorosa vista de costas caminhando sob a neve, aparentemente deixando para trás um lindo jovem triste, lágrimas escorrendo pelo rosto e uma música sentimental tocando…

                      Eles vão acabar voltando, fique tranquila, disse ele.

                      Eu sei, disse ela. Mas mesmo assim, agora é triste.

Desligaram a TV e começaram a arrumar a mesa para o almoço que estava chegando por delivery. O episódio foi esquecido num instante.

Na outra tarde ela foi flagrada gargalhando sozinha no sofá da sala. Quer dizer, não estava exatamente sozinha, tinha em suas mãos um livro. E ele entendeu a origem das risadas. Ao sentar-se ao seu lado teve que ouvir a história “mais engraçada que já ouvira”, que ela contou rindo intensamente até perder o fôlego.

Teve uma outra vez em que ela fechou o livro e chorou ardorosamente, aparentemente sofrendo muito. Nessa vez, ao espia-la através do vidro da cozinha, ele optou por deixá-la curtir aquela emoção por um tempo. Saiu de fininho para que não percebesse que estava sendo observada. Horas depois se encontraram no corredor da sala já combinando qual seria o rolê da noite.

Ela não sabe, mas ele percebeu seus olhos ainda ligeiramente vermelhos após ter extravasado tanto sentimento com a leitura da vez. Certa vez ousou perguntar a ela porque se envolvia tanto com os personagens das histórias que lia ou assistia. E ela ficou incomodada. Não compreendia como alguém podia ler e não sentir, ver e não viver, as dores, alegrias e amores das histórias. E disse que as histórias são como curas para as emoções que guardamos e nem sempre sabemos como lidar.

Por meio dos personagens aprendemos várias maneiras de lidar com sentimentos que nem sabemos que sentimos. E é por isso que eu me permito estar presente em universos que visito na ficção, concluiu ela. Racional como era, ele absorveu pouco desse discurso emocionado dela. Pelo menos entendeu que era assim que ela seguiria vivenciando suas outras vidas, fossem elas encontradas nos livros, nas telas do cinema ou da televisão.

Ouça a história na voz de Adriana Passari:

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