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Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 14-08-2026

Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 14-08-2026

Por Adriana Passari - @adrianapassari

Route 66

 

Saiu do dentista inspirada. Colocou na playlist do celular, pra tocar no carro, a música que foi citada no livro que estava lendo na recepção. Route 66, na voz de Nat King Colle, começou a ressoar no alto-falante trazendo toda a atmosfera dos anos 40. Imediatamente foi transportada para uma época em que nem seus pais haviam nascido.

Olhou para o retrovisor e avistou um Ford 18, com o capô vermelho, dirigido por um senhor usando um elegante chapéu de palha. Piscou duro três vezes antes de ter certeza de que estava mesmo vendo um veículo de quase cem anos pelo espelho do seu próprio veículo elétrico, com sensor de estacionamento, câmeras de segurança na frente, laterais e ré, piloto automático, airbags, multimidia e muitos outros acessórios. Concentrou-se no caminho à sua frente antes que um poste se colocasse em seu caminho e acabasse provocando um indesejado acidente.

A música seguiu tocando e embalando o clima de nostalgia que vertiginou a mente da criatura que agarrou firme ao volante para não perder o controle da condução. Sentiu-se como naquela série antiga da televisão onde os viajantes do tempo desembarcam num tempo passado e totalmente desconhecido dos navegantes. Acionou o botão do vidro e abriu a janela do carro para receber uma corrente de vento que colocasse as coisas de volta ao seu lugar dentro da sua cabeça. Respirou profundamente. Abriu os olhos e deleitou-se com uma paisagem deliciosamente estranha ao seu quotidiano. Era a sua cidade, mas ao mesmo tempo, não era. A rua, agora de paralelepípedo, estava praticamente vazia, pelo menos de carros. Algumas pessoas caminhando aqui e ali, pela calçada da vendinha, saindo carregando sacolas de palha, aos pares, de braços dados e sombrinha na mão.

Desistiu de tentar entender e passou a saborear a visita que fazia ao passado tão distante. Queria ter pensado em estacionar e abordar aquelas pessoas, mas teve medo de estragar o momento mágico que estava vivendo. Seguiu dirigindo bem lentamente, absorvendo toda e qualquer imagem que lhe saltava aos olhos.

Ouviu uma buzina, fom fom, e olhou para trás em busca do Ford que havia visto, mas não encontrou, voltou a olhar para a frente e freou, assustada, afundando o pé no pedal do veículo, ao avistar um semáforo com a luz vermelha bem intensa à sua frente. A música terminou de tocar no aparelho do carro. Olhou ao redor e voltou à realidade dos dias atuais, um pouco entristecida, mas agradecida pelo presente.

 

Ouça a história na voz de Adriana Passari:

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