Por Adriana Passari - @adrianapassari
Visita indesejada
Inspira... expira... inspira... expira... inspira... expira...
Mais um dia daqueles... A ansiedade bate à porta da frente e desavisada ela abre sem ver. O jeito agora é lidar com a visita indesejada da melhor forma possível. Os velhos truques de novo. Chazinho morno, respiração, concentração, música clássica... ela já nem sabe qual desses métodos naturais funcionam, mas de uma maneira geral, antes funcionavam melhor. Agora o apelo ao comprimido parece inevitável. Ela resiste por um tempo, mas não o tempo todo e sucumbe à urgência de sentir os pulmões se encherem novamente.
Apaga as luzes, fecha os olhos e espera. Não dorme, apenas se esconde da crise na expectativa de que ela vá embora sem fazer alarde. E ela vai. Mas vai sem pressa e sem deixar saudade. Bate a porta ao sair, desaforada, como quem diz que volta, sem aviso prévio, na hora que bem entender.
O jeito é aprender a viver com ela, ou melhor sobreviver, apesar dela. E apesar de todos os pesares, sua ausência traz também o esquecimento de sua existência. E mais um dia de pleno gozo pela vida marca presença. Esse dia tem aroma de lavanda com toque de baunilha, é doce, mas também fresco como mato verde, de grama cortada e gotas de chuva.

Um aroma que transborda e inunda tão abundantemente que extravasa pelos vãos das portas e janelas contagiando os arredores. Um dia de cada vez. Essa é a receita de quem tem a “estranha mania de ter fé na vida”, como já dizia Milton (Nascimento). Já liberta de qualquer preocupação, ela segue cantando, mais uma vez, desavisada. Dobra as esquinas como quem não teme um esbarrão qualquer e se ele vier, será obra do destino, e se o destino quer, é preciso encarar e pronto.
Ela não teme a vida, como não teme a morte. Uma faz parte da outra. Atravessa a rua com segurança, porque não quer dar moleza para o azar, mas não desvia das poças d’água e das folhas caídas no caminho. Fazem parte do cenário que encanta ou desagrada, dependendo do olhar.
E seu olhar hoje é para a frente, para o caminho que se abre a cada passada.
Ouça a história na voz de Adriana Passari: