As parcerias com as creches filantrópicas de Piracicaba
Barjas Negri
O ensino de educação infantil no Brasil, não é obrigatório, o que ajuda a explicar o baixo nível de atendimento registrado historicamente. Em Piracicaba, no entanto, existia uma rede significativa de creches filantrópicas que desempenhava um papel essencial: atendiam bem crianças de zero a cinco anos e, ao mesmo tempo, permitiam que muitas mães pudessem trabalhar ou estudar.
Com o passar do tempo, a Prefeitura passou a investir na construção e implantação de novas escolas municipais de educação infantil, integralmente custeadas com recursos públicos. Embora essa política tenha ampliado a oferta de vagas, acabou impactando diretamente as creches filantrópicas, que começaram a enfrentar sérias dificuldades financeiras para se manter. Foi o caso, por exemplo, da Creche Nosso Lar, no Jardim Elite, e da Creche Branca de Azevedo, no centro, que acabaram encerrando suas atividades.
Diante desse cenário, entre 2007 e 2008, buscamos alternativas que preservassem o trabalho social dessas instituições e, ao mesmo tempo, ampliassem o atendimento público. Em diálogo com a direção dos Vicentinos, responsáveis pela Creche São Vicente de Paulo, no bairro Alto, encontramos uma solução viável. A proposta foi o aluguel do prédio pela Prefeitura, que o transformou em uma Escola Municipal de Educação Infantil em uma região que até então carecia desse tipo de atendimento. Foi uma solução vantajosa para todos: o valor do aluguel contribuiu para a manutenção da entidade, e o município pôde reformar, adaptar e ampliar o número de vagas. Hoje, essa unidade é uma das maiores da rede municipal.
Ao retornar ao cargo de prefeito em 2017, fui novamente procurado por outras creches filantrópicas que enfrentavam dificuldades semelhantes. Mais uma vez, buscamos soluções equilibradas, que atendessem tanto às instituições quanto à população.
No caso da Creche Ada Dedini Ometto, mantida pela Associação Amigos da Vila Rezende, adotamos um modelo semelhante ao da São Vicente de Paulo. A Prefeitura passou a alugar o prédio, realizando reformas e ampliações que permitiram aumentar significativamente o número de vagas, beneficiando diretamente as crianças e suas famílias. Situação parecida ocorreu com a Creche Marshelea Dawsey, da Associação Metodista, no bairro Nova América, que, embora de menor porte, contribuiu para a criação de dezenas de novas vagas públicas.
No bairro Santa Rosa, a Creche Lygia Gobbin, construída e mantida com o apoio dos empresários Nino Gobbin e Marcos Gobbin, acionistas da Codistil, além do suporte administrativo de uma loja maçônica de Piracicaba, também passou a enfrentar dificuldades financeiras. Nesse caso, foi firmado um acordo de cessão do prédio e das instalações para a Prefeitura, que transformou o espaço em uma Escola Municipal de Educação Infantil, ampliando o atendimento à população local.
Atualmente, essas quatro unidades integram a Rede Municipal de Educação de Piracicaba e, juntas, atendem mais de mil crianças de zero a cinco anos. Esse atendimento é fundamental não apenas para o desenvolvimento educacional na primeira infância, mas também para garantir condições para que muitas mães possam trabalhar ou continuar seus estudos.
Com a incorporação dessas escolas, a rede municipal chegou a 2020 com 92 unidades de educação infantil, atendendo 19.482 alunos nessa faixa etária. Somadas às escolas particulares, o município passou a atender cerca de 70% das crianças de zero a cinco anos, um índice expressivo e acima da média nacional. Vale lembrar que o Plano Nacional de Educação estabelecia como meta alcançar 50% de atendimento até 2024, objetivo que, infelizmente, não foi atingido em nível nacional
Barjas Negri foi ministro da Saúde e prefeito de Piracicaba por três gestões