“La più bella del mondo”
Ivana Maria França de Negri
Há muito tempo, talvez séculos, vivia lá pelas bandas da Itália, uma jovem muito bela. Tão encantadora que sua beleza ofuscava completamente a das outras. Despertava o desejo nos homens e a inveja nas mulheres.
Os cabelos eram negros, ondulados, e moviam-se levemente quando caminhava, como se fossem fios de seda ao vento. Os olhos eram dois pedacinhos de céu, muito azuis, duas safiras brilhantes. A boca carnuda e vermelha, destacava-se sensual no rostinho perfeito.
Seu corpo esguio, sustentado por pernas bem torneadas e graciosas, compunham uma imagem angelical, uma fada, sílfide, verdadeira deusa cheia de encanto e frescor.
No auge da sua juventude e formosura, ganhou um concurso de beleza e deram-lhe uma medalha de ouro com os dizeres gravados: “La più bella del mondo”.
E ela ficou tão maravilhada, tão orgulhosa, cultivando a desvirtude da arrogância, pois sentia-se superior às outras jovens da sua idade. E não tirou mais a medalha do pescoço. Onde ia portava o pingente. Na igreja, na feira, nos passeios, nas visitas e não a retirava nem para dormir. E os anos foram passando...
Ela não aceitou nenhum pedido de casamento, sempre achava um defeito nos pretendentes e os dispensava. Acabou solteira, sem filhos, e por conseguinte, sem netos, enquanto as outras, menos belas, casaram-se, tiveram seus rebentos e tornaram-se rechonchudas e felizes vovós.
Mas ela se recolheu, e raramente saía de casa, só rapidamente apenas para comprar o suficiente. Tinha pavor de olhar-se no espelho e ver o que o tempo, esse maldito, tinha feito com ela. Os negros cabelos sedosos ficaram branquinhos como a neve invernal. A pele de pêssego, que antes se assemelhava ao marfim, tornou-se enrugada, cheia de manchas, rugas e pintas. E como ver a própria imagem era motivo de pavor e desespero, retirou todos os espelhos da casa. Só assim não sofria tanto.
As pessoas, que antes a invejavam, agora sentiam pena, queriam se aproximar, mas ela as repelia sendo seca e pouco amigável. E nem atendia à porta quando batiam. Por isso as pessoas desistiram dela. Não havia o que fazer.
Mais tempo passou, e ela acabou adoecendo e se foi... Sem ninguém por perto, dormiu e não acordou mais. Fizeram o enterro, mas não ousaram tirar a medalha do seu pescoço. Foi enterrada como indigente, pois nem um jazigo possuía.
O tempo, que não para nunca, a apagou das memórias e ninguém mais lembrou da mais bela do mundo. Vieram novas gerações que nem souberam da sua existência. Outras belas nasceram e também se foram porque nada é para sempre nesta vida.
E a sucessão dos minutos, horas, dias, meses e anos, conhecida como tempo, qual o coelho branco da Alice, correu célere...
E eis que alguns lavradores estavam preparando a terra para um novo plantio quando a pá de um deles bateu num objeto metálico. Cavaram mais fundo e encontraram uma caveira enegrecida enroscada em musgos, com uma corrente suja de terra e emaranhada nos ossos do pescoço, onde um pingente ainda mantinha legíveis os dizeres: “ La piú bella del mondo”...
Essa lenda italiana minha mãe que me contou, e ouviu da mãe dela, minha avó nascida na Itália. E eu a estou recontando a vocês, leitores. E é assim que as lendas permanecem vivas.
Ivana Maria França de Negri é escritora