Geração Nutela
Existe um problema silencioso que vem impactando diretamente a formação de atletas e ele não está nas quadras, nos tatames ou nos campos. Está dentro de casa.
Cada vez mais, vemos crianças e jovens sendo criados em ambientes onde a frustração é evitada a qualquer custo. Pais bem-intencionados, movidos pelo amor e pelo desejo de proteger, acabam impedindo que seus filhos enfrentem derrotas, dificuldades e limites naturais do processo esportivo. O resultado? Atletas emocionalmente frágeis, pouco resilientes e despreparados para a realidade competitiva e principalmente para a vida.
O esporte, por essência, é um ambiente de desafios constantes. Perder faz parte. Errar faz parte. Ficar no banco, não ser convocado, não conquistar medalhas — tudo isso compõe a jornada de qualquer atleta. É justamente nesse cenário que se desenvolvem características fundamentais como disciplina, perseverança, controle emocional e capacidade de superação.
Quando os pais interferem excessivamente questionando decisões de treinadores, justificando derrotas, terceirizando responsabilidades ou até evitando que o filho enfrente situações difíceis, acabam enfraquecendo aquilo que o esporte mais pode oferecer: formação de caráter.
A ausência da frustração cria uma falsa sensação de merecimento contínuo. A criança passa a acreditar que sempre será recompensada, independentemente do esforço ou desempenho. E quando inevitavelmente encontra um obstáculo real, uma derrota importante, uma cobrança mais dura, um nível mais alto de competição não sabe como reagir. Muitos desistem. Outros entram em conflito. Poucos conseguem se adaptar.
É preciso resgatar o valor pedagógico da derrota. Ensinar que perder não é o fim, mas parte do caminho. Que o erro é uma ferramenta de aprendizado e parâmetro para o sucesso. Que o esforço consistente vale mais do que resultados imediatos.
Pais têm papel fundamental nesse processo, mas não como “escudos” contra a realidade. Devem ser suporte, não substitutos da experiência. Apoiar não é evitar a dor, é ajudar a lidar com ela. Formar atletas vai muito além da técnica. Trata-se de formar indivíduos capazes de enfrentar desafios dentro e fora do esporte. E isso só é possível quando permitimos que vivenciem, desde cedo, aquilo que o pódio não mostra: a frustração, a queda e, principalmente, a coragem de levantar novamente.
Porque, no fim, o verdadeiro vencedor não é aquele que nunca perde — é aquele que nunca desiste.
Frederico Mitooka
Gestor Esportivo | CREF 027474-G/SP
Graduado em Educação Física e Comunicação Social com pós-graduação em Ciências Políticas e especialização em Gestão Pública.