O que motiva suas escolhas?
Ronaldo Castilho
A pergunta “o que motiva suas escolhas?” atravessa séculos, culturas e tradições intelectuais. Ela toca o núcleo da condição humana: decidir é existir. Cada escolha, mesmo a aparentemente banal, carrega consigo valores, desejos, medos, expectativas e condicionantes históricos. Escolher não é apenas optar entre caminhos; é afirmar quem somos, quem acreditamos ser e quem desejamos nos tornar. Ao longo da história, pensadores das mais diversas épocas se debruçaram sobre esse tema, tentando compreender se nossas decisões nascem da razão, da vontade, da emoção, da liberdade ou das circunstâncias que nos cercam.
Na Antiguidade clássica, Aristóteles entendia que as escolhas humanas estão diretamente ligadas à busca do bem. Para ele, toda ação visa a um fim, e o fim último é a eudaimonia, frequentemente traduzida como felicidade ou vida boa. Escolhemos aquilo que julgamos ser um meio adequado para alcançar esse bem maior. Nesse sentido, a razão ocupa papel central: é ela que permite deliberar, ponderar consequências e escolher com virtude. A escolha correta, portanto, não é fruto do impulso, mas do hábito moral construído ao longo da vida.
Já na tradição estoica, representada por Epicteto, a motivação das escolhas está profundamente relacionada à distinção entre o que depende de nós e o que não depende. Para os estoicos, a liberdade humana reside na capacidade de escolher a atitude diante dos acontecimentos, e não nos acontecimentos em si. Assim, nossas escolhas são motivadas pela busca da tranquilidade da alma (ataraxia), alcançada quando aceitamos o que não controlamos e governamos aquilo que está ao nosso alcance: pensamentos, julgamentos e ações.
Na Idade Média, Santo Agostinho introduziu um elemento decisivo nesse debate: a vontade. Para ele, o ser humano escolhe movido pelo amor — amor meus, pondus meus, “meu amor é meu peso”. Aquilo que amamos nos impulsiona. Se o amor está desordenado, as escolhas também estarão. Já Tomás de Aquino conciliou razão e fé, defendendo que a vontade humana é orientada pela razão, mas inclinada pelo desejo do bem. Escolher, portanto, é um ato racional e voluntário, iluminado por valores morais e, para o cristianismo, pela lei divina.
Com a modernidade, a questão das escolhas ganha novos contornos. René Descartes enfatizou o papel da razão como guia seguro das decisões humanas, mas reconheceu que a vontade é mais ampla do que o entendimento, o que explica nossos erros: escolhemos antes de compreender plenamente. Em contraste, David Hume afirmou que a razão é, e deve ser, escrava das paixões. Para ele, não escolhemos motivados pela lógica fria, mas pelos sentimentos, afetos e inclinações. A razão apenas nos ajuda a encontrar os meios para satisfazer desejos que já existem.
No campo político, Thomas Hobbes via as escolhas humanas como fortemente motivadas pelo instinto de autopreservação e pelo medo. Em um estado de natureza marcado pela insegurança, escolhemos abrir mão de parte da liberdade em troca de proteção. Já Jean-Jacques Rousseau acreditava que o ser humano é naturalmente bom, mas corrompido pela sociedade, o que distorce suas escolhas. Para ele, a verdadeira liberdade está em escolher de acordo com a vontade geral, e não apenas com interesses individuais.
No século XIX, Friedrich Nietzsche rompeu com muitas dessas tradições ao afirmar que nossas escolhas são motivadas pela vontade de poder. Não escolhemos apenas para sobreviver ou ser felizes, mas para afirmar a vida, criar valores e superar limites. Para Nietzsche, a moral tradicional muitas vezes aprisiona a escolha, enquanto o indivíduo autêntico cria seus próprios critérios. Em outra direção, Karl Marx destacou que as escolhas não podem ser compreendidas isoladamente do contexto material. As condições econômicas e sociais moldam desejos, necessidades e possibilidades, limitando a ideia de uma escolha plenamente livre.
No século XX, o existencialismo levou a reflexão ao extremo. Jean-Paul Sartre afirmou que estamos “condenados à liberdade”. Não escolher também é uma escolha. Para ele, não existem valores prévios que determinem nossas decisões; somos nós que, ao escolher, criamos valores e assumimos total responsabilidade por eles. A angústia surge justamente dessa liberdade radical. De forma semelhante, Hannah Arendt refletiu sobre as escolhas em contextos de massa e autoritarismo, alertando para o perigo da ausência de pensamento crítico. Quando deixamos de refletir, nossas escolhas se tornam automáticas, e o mal pode se banalizar.
Nos tempos atuais, a pergunta sobre o que motiva nossas escolhas torna-se ainda mais complexa. Vivemos em uma sociedade marcada pelo excesso de informações, pela velocidade das decisões e pela influência constante das redes sociais, do consumo e dos algoritmos. Muitas escolhas que acreditamos ser pessoais são, na verdade, orientadas por padrões de comportamento induzidos, pela lógica do mercado e pela busca de aprovação social. O discurso da liberdade individual convive com mecanismos sofisticados de persuasão que moldam preferências, hábitos e até convicções políticas e morais.
Além disso, fatores como insegurança econômica, crises climáticas, polarização política e transformações tecnológicas influenciam profundamente o modo como decidimos. Em um mundo instável, escolhas tendem a ser mais defensivas, imediatistas ou baseadas no medo. Ao mesmo tempo, cresce uma consciência coletiva sobre responsabilidade social, sustentabilidade e ética, levando muitos a repensarem decisões de consumo, carreira e participação política.
As perspectivas para o futuro colocam novos desafios. A inteligência artificial, a automação e a biotecnologia prometem ampliar possibilidades, mas também levantam questões éticas profundas: até que ponto nossas escolhas continuarão sendo humanas? Quem decide quando algoritmos sugerem, antecipam ou até substituem decisões? O risco não está apenas na perda de autonomia, mas na delegação acrítica da responsabilidade moral. O futuro exigirá indivíduos cada vez
mais conscientes de seus valores, capazes de refletir criticamente e de resistir à tentação da escolha fácil ou terceirizada.
Em última instância, o que motiva nossas escolhas é uma combinação dinâmica de razão, emoção, valores, contexto histórico e condições materiais. Nenhuma teoria, isoladamente, dá conta da complexidade do agir humano. Mas todas convergem em um ponto essencial: escolher é um ato profundamente humano e inevitavelmente ético. Cada escolha revela algo sobre nós e contribui para moldar o mundo em que vivemos. Refletir sobre o que nos motiva não é um exercício abstrato; é um gesto de responsabilidade com o presente e com o futuro. Afinal, ao escolher, não decidimos apenas caminhos — decidimos sentidos.
Ronaldo Castilho é Jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. É licenciado em História e Geografia, bacharel em Teologia e Ciência Política, e possui MBA em Gestão Pública com ênfase em Cidades Inteligentes.