Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 09-10-2026
Por Adriana Passari - @adrianapassari
Um homem maluquinho
Fefepa, quando era apenas um garoto de 9 anos, ganhou de presente da madrinha que tinha com ele grande afinidade e paciência, um livro infantil que falava de um menino muito maluquinho. Ele não se afeiçoou ao livro logo de cara porque tinha muitas outras coisas para fazer primeiro: jogar bola, videogame, tarefa escolar, tirar uma soneca, implicar com a irmã mais velha, ir na casa do amigo pra trocar figurinhas, andar de bicicleta e aprender a andar de skate. Ou seja, sua vida estava muito atarefada, isso sem incluir as refeições diárias com a família quando a mãe vigiava de perto, obrigando a engolir algumas cenouras e umas folhas insossas de alface. Todo dia era essa marcação cerrada em cima dele que se sentia pressionado enquanto tentava sobreviver às dificuldades da pré-adolescência.
O livro foi colocado na escrivaninha e passou lá alguns dias e noites solitário. Quando chegou o fim de semana a mãe “ditadora”, ordenou aos berros, que seu quarto fosse arrumado antes que ela jogasse no lixo tudo que estava fora de lugar. E lá foi o Fefepa, totalmente contrariado e resmungando, começar a arrumação. Recolheu dois pares de tênis encardidos e atirou no fundo do armário de sapatos sem nem tomar o cuidado de tirar as meias de dentro.
Começou a guardar umas roupas espalhadas e ao retirar um moletom de cima da escrivaninha deu de cara com o livro que ganhou da tia tão querida e divertida. Soltou no chão a pilha de roupas que tinha juntado e segurou o livro com mais interesse do que antes tinha lhe despertado. Ajeitou-se na cabeceira da cama com dois travesseiros nas costas e começou a ler o tal do livro. A tarde passou voando e ele não desgrudou daquelas páginas até chegar ao desfecho da história.
A mãe que ganhou uma tarde de tranquilidade, de repente percebeu a ausência do barulho do seu filho pela casa. Preocupada foi procurar pelo menino e ao abrir a porta do quarto deu de cara com a bagunça toda ali ainda espalhada. Antes que tivesse um chilique estratosférico, notou seu filho deitado na cama, chorando com o livro nas mãos. Correu até ele e perguntou assustada: - o que foi meu filho? O menino soluçando apontou o livro com um movimento de cabeça e disse ainda entre lágrimas: - ele cresceu mamãe!! A mãe ao entender que se tratava de emoção com a história, emocionou-se também abraçada ao filho. – Ele cresceu filho, e se tornou uma pessoa legal, foi o que ela conseguiu dizer.

Sete anos depois, a família estava toda reunida para as homenagens da escola aos alunos formandos do terceiro ano do ensino médio. Entre as surpresas da cerimônia, cada aluno recebeu uma caixa com pertences, objetos e lembranças trazidas pelos pais. No fundo da caixa de Fefepa, entre outros badulaques, estava o livro do menino maluquinho da sua infância. Mãe e filho reviveram as emoções daquele momento do passado e novas lágrimas molharam os ombros um do outro durante o longo abraço que depois dividiram com os demais familiares e amigos. Esta é a história. E nós ficamos por aqui torcendo pro Fefepa crescer e se tornar um homem maluquinho muito legal.
Ouça a história na voz de Adriana Passari:

Comentários