Lesão esportiva: quando aliviar a dor deixa de ser tratamento e passa a mascarar o problema?
Por Lícia Mangiavacchi
A dor é um dos principais sinais de alerta de que algo não está funcionando corretamente no corpo, mas, para atletas e pessoas fisicamente ativas, muitas vezes ela acaba sendo encarada como um obstáculo a ser contornado. Anti-inflamatórios, analgésicos, infiltrações, PRP (plasma rico em plaquetas) e outros procedimentos podem fazer parte do tratamento de determinadas lesões, mas o alívio da dor nem sempre significa que a causa do problema foi resolvida. A preocupação é ainda maior quando a pessoa utiliza esses recursos apenas para conseguir continuar treinando, sem investigar a origem do quadro. “A dor é um sintoma, não necessariamente a doença. Conseguir diminuir a dor não significa que a estrutura lesionada já esteja recuperada ou que o atleta possa retornar imediatamente à atividade”, explica o ortopedista Dr. Tiago Tamaru.
Lesões esportivas estão entre os problemas mais comuns relacionados à prática de atividades físicas. Dados do Ministério da Saúde mostram a relevância da atividade física para a prevenção de doenças crônicas, mas o aumento da prática esportiva também exige atenção à preparação adequada, progressão de carga e recuperação. Em atletas, principalmente aqueles submetidos a treinamentos intensos e repetitivos, pequenas sobrecargas podem evoluir para lesões mais importantes quando não há tempo suficiente para recuperação.
Segundo Thiago Tamaru, um dos sinais de que é necessário interromper a estratégia de simplesmente controlar a dor é quando o problema se torna recorrente. “Se a pessoa precisa tomar medicamentos ou realizar procedimentos repetidamente para conseguir treinar, é importante questionar por que aquela dor está voltando. Precisamos entender se existe uma alteração biomecânica, excesso de carga, deficiência muscular, erro de treinamento, lesão estrutural ou outro fator que esteja mantendo o problema”, afirma.
O uso de anti-inflamatórios, por exemplo, pode ser indicado em situações específicas e por orientação médica, mas não deve ser encarado como uma autorização para ignorar os sinais do organismo. Da mesma forma, infiltrações podem proporcionar redução da dor e da inflamação em determinados quadros, mas sua indicação depende do diagnóstico e da estrutura envolvida. “O tratamento precisa ser individualizado. Não existe um procedimento que seja adequado para toda dor esportiva. Antes de escolher uma intervenção, precisamos saber exatamente o que está acontecendo”, ressalta o ortopedista.
O PRP, que utiliza componentes do próprio sangue do paciente, também ganhou espaço no tratamento de algumas lesões musculoesqueléticas. Entretanto, seus resultados variam conforme o tipo e o local da lesão, e o procedimento não deve ser apresentado como uma solução universal. O diagnóstico correto continua sendo fundamental para definir se o PRP ou qualquer outra intervenção realmente tem indicação.
Outro ponto de atenção é a chamada “dor tolerável”. O fato de o atleta conseguir suportar o desconforto não significa necessariamente que seja seguro continuar treinando. Dor que aumenta progressivamente, aparece durante atividades que antes eram realizadas sem dificuldade, persiste após o treino, provoca alteração na maneira de correr ou caminhar ou vem acompanhada de inchaço, perda de força ou limitação de movimento merece avaliação profissional.
A recuperação também não deve ser avaliada exclusivamente pela ausência da dor. Dependendo da lesão, é necessário recuperar força, mobilidade, estabilidade, coordenação e capacidade de suportar gradualmente a carga antes do retorno completo ao esporte. “O objetivo não é apenas fazer o paciente parar de sentir dor, mas permitir que ele volte a desempenhar sua atividade com segurança. Em muitos casos, fisioterapia, fortalecimento e ajuste da carga de treinamento são tão importantes quanto qualquer medicamento ou procedimento”, explica Tamaru.
A recomendação ganha importância diante do crescimento da busca por atividades físicas. A Organização Mundial da Saúde estima que 31% dos adultos e 80% dos adolescentes não atingem os níveis recomendados de atividade física, o que demonstra a necessidade de estimular o exercício, mas também de fazê-lo de maneira progressiva e segura. Para quem já pratica esportes regularmente, respeitar períodos de descanso e observar sinais persistentes do corpo é parte da prevenção.
“O exercício é extremamente importante para a saúde, e não devemos criar uma cultura de medo em relação à dor ou às lesões. O que precisamos evitar é transformar o controle temporário do sintoma em uma estratégia para continuar sobrecarregando uma estrutura que ainda precisa ser tratada”, conclui o ortopedista.
Assim, a pergunta não deve ser apenas “como faço para parar de sentir dor?”, mas também “por que essa dor está acontecendo?”. Quando o desconforto persiste, retorna sempre que o treinamento é retomado ou exige intervenções frequentes para que a pessoa consiga permanecer ativa, investigar a causa pode ser o passo mais importante para evitar que uma lesão inicialmente simples se transforme em um problema prolongado.

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