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Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 17-07-2026

Publicada em: 17/07/2026 09:21 -

Por Adriana Passari - @adrianapassari

Portas abertas

 

Houve um tempo que a infância tinha uma liberdade quase impossível de viver hoje em dia. O amigo de escola, que virou amigo da vida inteira, morava no outro quarteirão ao virar a esquina. Era só atravessar uma rua e estavam um na casa do outro e o outro na casa do um. A intimidade era tanta que ninguém batia na porta não. No máximo tocava a campainha enquanto abria o portão e ia gritando: - tô entrando! E as portas estavam sempre destrancadas para aquele vai e vem. Porque naquele tempo, as crianças podiam sair às ruas sem tanta preocupação. Quantas voltas inteiras no quarteirão disputando quem é que conseguia manter o bambolê girando na cintura sem deixar cair ao chão. Os passeios de patins se equilibrando nos muros da vizinhança, principalmente na descida, evitando os tropeços nas calçadas mal conservadas do bairro. Os passeios de bicicleta, mais ousados, que ultrapassavam os limites do bairro.

As mães já sabiam que se não estavam aqui, estavam ali. As crianças assim viviam misturando as famílias. A braveza do pai de um doía nos outros. O conselho do pai da outro atingia todos. A doçura da mãe de um adoçava todos. Com uma mãe aprendiam a apreciar os acordes de violão nos ensaios cheios de alegria, com a outra assistiam a arte de fazer bolos deliciosos. Não aprenderam nenhum e nem outro ofício.

Nada de tocar violão ou de fazer bolos. Mas se divertiam assistindo. Desde cedinho quando iam para a escola passavam horas incontáveis juntos. Ficavam até tarde jogando bola na frente das casas ou sentados na calçada conversando sobre tudo e todos. Uma das vizinhas mais simpáticas, de vez em quando fazia bolo de fubá cheiroso, irresistível e chamava toda a turminha para um lanchinho. Uma outra que era mais mal humorada, às vezes reclamava da bagunça da galerinha, mas no fundo no fundo, estava era tomando conta da criançada, como todos os outros estavam. Até bronca coletiva rolava no caso de uma peraltice que ultrapassasse os limites.

Ir até a venda lá perto, à farmácia no outro quarteirão e à padaria virando a esquina eram solicitados de vez em quando e lá iam os pequenos com orgulho pela responsabilidade assumida. E assim cresciam juntos, os filhos de uns e de outros. E o tempo passou. Mais do que o tempo, foram os tempos que passaram e mudaram. Hoje as portas e portões não estão mais abertos.

Ouça a história na voz de Adriana Passari:

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