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Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 26-06-2026

Publicada em: 26/06/2026 09:25 -

Por Adriana Passari - @adrianapassari

 

A última vez

 

O dia do aniversário dela, em plena pandemia, não poderia passar em branco. Apesar do distanciamento severo, tinha que haver um jeito. Encomendou um balão colorido, com gás helio e emendou um fio bem comprido pra chegar no segundo andar, comprou picolés de uva na loja de conveniência e preparou a música favorita na playlist do celular. Avisou a portaria que estava entrando, assim de improviso, sem avisar antes, para que não houvesse tempo de ser barrada. Parou na porta da casa e apertou o play bem alto. Gritou para que ela abrisse apenas a sacada do seu quarto no sobrado onde morava. Cantaram juntas a plenos pulmões, ela no térreo e a outra no segundo andar. Primeiro a música da dupla Sandy e Júnior e depois o parabéns. Espirrou muito álcool no balão, suspendeu-o pelo fio até chegar ao destino, na sacada. Essa foi a última vez que se viram. A última mensagem do celular nunca foi apagada.

 

Ele estava na arquibancada, como sempre, nos dias de jogos de basquete do time que comandava. O jogo foi excepcional, um dia muito feliz para a equipe. A vitória foi celebrada com a torcida que estava presente. Ele, muito mais por satisfação do que obrigação, era sempre o último a sair da cena. Esperava todos os atletas deixarem o vestiário, entregava um abraço e um sorriso, não somente na vitória, mas principalmente nas inevitáveis derrotas. Ele passou pelo dirigente, ganhou o seu abraço e saiu. Foi a última vez que o viu.

 

Almoçaram juntos naquela quarta-feira. Ele estava muito nervoso ultimamente e se recusava a atender os apelos da familia para buscar ajuda médica. A saúde não andava bem mas o orgulho seguia intacto. Mesmo estremecidos, aceitou o convite para a refeição junto aos filhos e netos. Passaram momentos descontraídos. Era sempre assim, desde que ninguém o contrariasse ou abordasse o tema que mais o incomodava. Ninguém podia mandar nele ou no seu destino. Despediram-se sem afagos efusivos, bem ao seu estilo. Foi a última vez que o viram.

 

Ela debruçou sobre seu peito, empenhando todo o amor que carregava no próprio. Passou um bom tempo por lá enquanto conversavam em tom de voz bem baixinho, mas com total compreensão. Muito mais de sentimentos do que palavras. Ouviram juntos uma canção que falava de um amor tão grande quanto o mundo e que ficou cravada para sempre no seu coração. Foi a última vez que o viu.

 

Ouça a história na voz de Adriana Passari:

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