Populismo à brasileira: de Vargas às redes sociais, uma história que ainda não terminou
Ronaldo Castilho
Poucos fenômenos políticos marcaram tão profundamente a história brasileira quanto o populismo. Embora o termo seja frequentemente utilizado como crítica ou acusação no debate público, sua compreensão exige uma análise mais cuidadosa. O populismo não é uma ideologia específica, tampouco pertence exclusivamente à direita ou à esquerda. Trata-se, antes de tudo, de uma forma de construção do poder político baseada na relação direta entre um líder carismático e as massas, muitas vezes estabelecida à margem das instituições tradicionais e dos mecanismos intermediários da democracia.
A trajetória do populismo no Brasil atravessa quase um século e ajuda a explicar não apenas o passado, mas também muitos dos desafios enfrentados pela democracia brasileira no século XXI. De Getúlio Vargas aos atuais fenômenos políticos impulsionados pelas redes sociais, o populismo continua sendo um elemento central da cultura política nacional.
O ponto de partida dessa história é inevitavelmente a ascensão de Getúlio Vargas após a Revolução de 1930. Em um país ainda predominantemente rural, marcado pelo coronelismo e pelas oligarquias estaduais, Vargas apresentou-se como o líder capaz de representar os interesses do povo diante das elites tradicionais. Sua estratégia consistiu em criar uma forte identificação entre o Estado e as classes trabalhadoras urbanas emergentes.
Ao longo de seu governo, Vargas promoveu importantes avanços sociais, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a regulamentação das relações trabalhistas e a ampliação da presença estatal na economia. Em contrapartida, consolidou um modelo político centralizador, personalista e fortemente dependente de sua imagem como "pai dos pobres".
O sociólogo Francisco Weffort, um dos principais estudiosos do tema no Brasil, interpretou o populismo varguista como uma forma de mediação política surgida em uma sociedade em transição. Para Weffort, o populismo permitiu a incorporação das massas urbanas à vida política, mas de maneira controlada, mantendo a dependência dos trabalhadores em relação ao líder e ao Estado.
Essa visão também dialoga com as reflexões do historiador Boris Fausto, que observou como Vargas construiu uma imagem paternalista capaz de reunir diferentes grupos sociais sob sua liderança. O povo não era estimulado a participar autonomamente da política, mas a confiar no governante que dizia falar em seu nome.
Após a queda do Estado Novo em 1945, o populismo não desapareceu. Pelo contrário, encontrou terreno fértil na democratização do país. Lideranças como Adhemar de Barros, Jânio Quadros e João Goulart utilizaram diferentes versões da mesma estratégia: a comunicação direta com a população, o discurso contra as elites tradicionais e a promessa de soluções rápidas para problemas complexos.
Jânio Quadros talvez tenha sido um dos exemplos mais emblemáticos desse período. Sua campanha presidencial de 1960 utilizou a famosa imagem da vassoura, símbolo da promessa de "varrer a corrupção". Seu discurso simples e emocional conquistou milhões de eleitores cansados da política convencional. Entretanto, seu governo durou apenas sete meses, demonstrando uma das fragilidades históricas do populismo: a distância entre a força do discurso e a capacidade efetiva de governar.
O cientista político argentino Ernesto Laclau, um dos mais influentes teóricos do populismo contemporâneo, ofereceu uma interpretação distinta da visão tradicional. Para ele, o populismo não deve ser visto necessariamente como uma deformação da democracia. Em sua análise, trata-se de uma forma de construção política que emerge quando diferentes demandas sociais encontram expressão em uma liderança capaz de unificá-las.
Sob essa perspectiva, o populismo pode representar tanto uma ampliação da participação política quanto um risco para as instituições democráticas. Tudo depende da maneira como essa relação entre líder e povo é construída.
O golpe militar de 1964 interrompeu o ciclo populista clássico brasileiro. Durante duas décadas, os militares procuraram substituir a política de massas pela tecnocracia e pelo controle institucional. No entanto, o populismo jamais desapareceu completamente da cultura política nacional.
Com a redemocratização, a partir de 1985, novas formas de populismo começaram a surgir. A televisão tornou-se o principal instrumento de comunicação direta entre líderes e eleitores. Fernando Collor de Mello construiu sua candidatura presidencial em 1989 apresentando-se como o "caçador de marajás", alguém disposto a enfrentar privilégios e combater a corrupção. Mais uma vez, o discurso de renovação mobilizou amplos setores da sociedade.
O cientista político Pierre Rosanvallon observa que o populismo costuma prosperar em momentos de desconfiança nas instituições representativas. Quando partidos políticos, parlamentos e outras organizações perdem credibilidade, cresce o espaço para líderes que prometem representar diretamente a vontade popular.
Essa análise ajuda a compreender os fenômenos políticos mais recentes do Brasil. Tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Jair Bolsonaro, embora situados em campos ideológicos opostos, utilizaram elementos típicos do discurso populista. Ambos construíram fortes conexões emocionais com suas bases eleitorais, apresentando-se como representantes autênticos do povo diante de elites políticas, econômicas ou culturais.
Lula desenvolveu uma narrativa baseada na inclusão social, na ascensão dos mais pobres e na valorização dos trabalhadores. Sua trajetória pessoal, marcada pela origem humilde e pela liderança sindical, fortaleceu essa identificação popular. Bolsonaro, por sua vez, consolidou uma narrativa de enfrentamento ao sistema político tradicional, ao que chamava de "velha política" e aos setores considerados dominantes no debate público.
O diferencial do século XXI está na tecnologia. Se Vargas utilizava o rádio e Collor dependia da televisão, os líderes contemporâneos contam com as redes sociais para estabelecer uma comunicação permanente e praticamente sem intermediários com seus seguidores. Essa transformação ampliou enormemente o alcance do populismo.
O filósofo italiano Norberto Bobbio alertava que a democracia depende do fortalecimento das instituições e da mediação política. Quando a figura do líder passa a ocupar espaço excessivo, corre-se o risco de enfraquecer os mecanismos de equilíbrio e controle que sustentam o regime democrático.
Ao mesmo tempo, ignorar completamente as razões que alimentam o populismo seria um erro. O crescimento desse fenômeno frequentemente revela problemas reais: desigualdade social, sensação de abandono, descrédito das instituições e incapacidade dos governos de responder às demandas da população.
A história brasileira demonstra que o populismo não é uma anomalia passageira. Ele acompanha as transformações sociais, adapta-se às novas tecnologias e ressurge sempre que parcelas significativas da população sentem que suas vozes não estão sendo ouvidas pelos canais tradicionais da política.
Talvez o grande desafio do Brasil contemporâneo seja justamente encontrar um equilíbrio entre liderança popular e fortalecimento institucional. A democracia precisa de representantes capazes de dialogar com a sociedade, mas também de instituições sólidas que sobrevivam aos governos e às paixões momentâneas.
Do rádio de Vargas aos algoritmos das redes sociais, o populismo brasileiro mudou de forma, mas preservou sua essência: a promessa de uma ligação direta entre o líder e o povo. A questão que permanece em aberto é se essa relação continuará fortalecendo a participação democrática ou se contribuirá para aprofundar a polarização e a fragilidade institucional que marcam o Brasil do século XXI.
A resposta ainda está sendo escrita. E, como tantas outras vezes em nossa história, será o próprio povo brasileiro quem decidirá os próximos capítulos.
Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba