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Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Publicada em: 15/06/2026 14:14 -

Brasil e a tentação dos extremos: estamos repetindo ciclos históricos de radicalização política?

 

Ronaldo Castilho

 

A história raramente se repete de forma idêntica. Entretanto, ela costuma rimar. A célebre observação atribuída a Mark Twain parece encaixar-se perfeitamente na trajetória política brasileira. Em diferentes momentos de sua formação histórica, o país mergulhou em períodos de forte polarização, conflitos ideológicos intensos e disputas que dividiram famílias, instituições e regiões. Diante do cenário contemporâneo, marcado por embates cada vez mais agressivos entre diferentes correntes políticas, surge uma pergunta inevitável: o Brasil está repetindo ciclos históricos de radicalização?

A resposta exige uma análise que vá além das paixões do momento. A radicalização política não é um fenômeno exclusivo do século XXI nem uma característica de determinado grupo ideológico. Ela acompanha a própria formação do Estado brasileiro. Durante o Império, liberais e conservadores travavam disputas permanentes sobre os rumos do país. Na Primeira República, conflitos entre oligarquias estaduais alimentaram sucessivas crises institucionais. A Revolução de 1930, a Intentona Comunista de 1935, o Estado Novo de Getúlio Vargas, a polarização da Guerra Fria, o golpe militar de 1964 e a redemocratização demonstram que o Brasil nunca esteve completamente imune às tensões políticas profundas. Historiadores como o pensador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda destacaram que muitos dos dilemas nacionais derivam da dificuldade histórica de separar relações pessoais das instituições públicas, criando ambientes favoráveis à personalização da política e aos conflitos em torno de lideranças.

O filósofo grego Aristóteles já advertia, há mais de dois mil anos, que a estabilidade política depende da existência de uma ampla classe média e de mecanismos que evitem a concentração excessiva de poder em grupos rivais. Para ele, os regimes tendem a se deteriorar quando os cidadãos deixam de buscar o bem comum e passam a enxergar a política como uma guerra permanente. De certa forma, sua reflexão continua atual em uma época em que adversários políticos são frequentemente tratados como inimigos a serem derrotados.

Séculos depois, o pensador francês Alexis de Tocqueville observou que as democracias modernas correm o risco de serem dominadas pela tirania das maiorias e pela paixão política excessiva. Tocqueville acreditava que instituições fortes, imprensa livre e associações civis independentes eram essenciais para evitar o extremismo. Sua análise sobre a democracia americana permanece relevante para compreender os desafios enfrentados por diversas democracias contemporâneas, incluindo a brasileira.

Outro autor frequentemente lembrado nesse debate é Hannah Arendt. Ao estudar os regimes totalitários do século XX, Arendt concluiu que a radicalização prospera quando cresce o isolamento social e quando a política passa a ser guiada por narrativas simplificadoras que dividem a sociedade entre "bons" e "maus". Para ela, a perda do diálogo é um dos primeiros sintomas de degradação democrática. Em tempos de redes sociais, algoritmos e bolhas informacionais, sua reflexão tornou-se ainda mais pertinente.

No caso brasileiro, muitos intelectuais contemporâneos têm chamado atenção para o fenômeno da polarização crescente. A antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz argumenta que o Brasil convive historicamente com desigualdades profundas e conflitos mal resolvidos que reaparecem em diferentes momentos da vida nacional. Para ela, a crença de que o país seria naturalmente conciliador muitas vezes mascara tensões estruturais que permanecem latentes. Já o filósofo Marcos Nobre sustenta que o sistema político brasileiro vive uma crise prolongada de representação, agravada pela dificuldade das instituições em responder às demandas de uma sociedade cada vez mais conectada e fragmentada.

Também merece destaque a análise do sociólogo espanhol Manuel Castells, um dos principais estudiosos da sociedade em rede. Castells afirma que a internet ampliou a capacidade de mobilização política, mas também fortaleceu fenômenos como a desinformação e a formação de comunidades ideológicas fechadas. Estudos acadêmicos recentes mostram que as chamadas "câmaras de eco" digitais favorecem a radicalização ao expor indivíduos predominantemente a opiniões semelhantes às suas, reduzindo o contato com perspectivas divergentes.

No Brasil, pesquisadores têm identificado o impacto das redes sociais na intensificação da polarização política. Estudos sobre o comportamento digital durante os últimos anos apontam que temas como pandemia, vacinação, eleições e decisões judiciais passaram a ser interpretados por parcelas da população principalmente sob lentes ideológicas, reforçando divisões já existentes.

No entanto, seria um erro concluir que o Brasil vive uma situação inédita ou sem saída. A própria história demonstra a capacidade do país de superar momentos de forte tensão. A redemocratização após o regime militar, a Constituição de 1988 e a alternância de poder entre diferentes grupos políticos mostram que as instituições brasileiras possuem mecanismos de adaptação e resistência. Ainda que enfrentem desafios, continuam funcionando dentro dos marcos democráticos.

Talvez a questão mais importante não seja saber se estamos repetindo ciclos históricos, mas compreender por que eles se repetem. A história brasileira sugere que períodos de radicalização costumam surgir quando coexistem crises econômicas, desconfiança nas instituições, lideranças carismáticas e transformações tecnológicas que alteram a forma como a sociedade se comunica. Esses elementos estiveram presentes em diferentes épocas e voltam a aparecer no cenário atual.

O filósofo britânico Karl Popper defendia que a força de uma democracia não está na ausência de conflitos, mas na capacidade de resolvê-los pacificamente. Democracias saudáveis não eliminam divergências; elas criam regras para que essas divergências coexistam. Quando a política se transforma em uma batalha moral absoluta, na qual um lado acredita deter toda a verdade e o outro é visto como ilegítimo, abre-se espaço para a radicalização.

O Brasil de 2026 parece viver exatamente esse desafio. Há sinais evidentes de polarização, discursos inflamados e crescente intolerância ao contraditório. Contudo, também existem instituições funcionando, eleições regulares, imprensa plural e uma sociedade civil ativa. A história ensina que a radicalização não é um destino inevitável. Ela é uma possibilidade que se fortalece quando o diálogo desaparece e enfraquece quando prevalecem a tolerância, a moderação e o respeito às regras democráticas.

Se existe uma lição que atravessa os séculos, de Aristóteles a Hannah Arendt, de Tocqueville a Lilia Schwarcz, é que nenhuma sociedade permanece democrática apenas por força de suas leis. A democracia depende, sobretudo, da disposição dos cidadãos de reconhecer que o adversário político não é um inimigo a ser eliminado, mas um interlocutor legítimo dentro de um projeto comum de nação. O futuro do Brasil talvez dependa justamente da capacidade de reaprender essa antiga e difícil lição.

Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

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