Player
 

 

Artigo - Barjas Negri - A mortalidade infantil voltou a crescer em Piracicaba, lamentável!

Publicada em: 15/06/2026 14:08 -

A mortalidade infantil voltou a crescer em Piracicaba, lamentável!

 

Barjas Negri

 

Em 2004, a taxa de mortalidade infantil de Piracicaba era de 14,9 óbitos por mil nascidos vivos, e era ligeiramente superior à média do Estado de São Paulo. Tratava-se de um indicador inadequado para uma cidade com a estrutura de saúde pública e a oferta de saneamento básico existentes, evidenciando que algo precisava ser corrigido.

Com nossa posse como prefeito, em 2005, foi criado o “Pacto pela Vida, Contra a Mortalidade Infantil”, uma ampla mobilização que reuniu ações da Secretaria Municipal de Saúde, do Semae (Serviço Municipal de Água e Esgoto), dos governos estadual e federal, além dos hospitais filantrópicos e particulares do município.

O trabalho contou ainda com a importante participação da Pastoral da Criança e dos profissionais da Rede Municipal de Atenção Básica, que, em conjunto com as equipes das maternidades locais, planejaram e executaram estratégias para reduzir a elevada taxa de mortalidade infantil.

Os resultados foram expressivos. Entre 2005 e 2020, a mortalidade infantil apresentou queda consistente, ficando abaixo de 10 em pelo menos cinco anos do período. Foi uma conquista que merece ser celebrada, pois representou a preservação da vida de aproximadamente 350 bebês, devido a redução da mortalidade infantil deste período.

A partir de 2021, entretanto, com a mudança da administração municipal, a implantação de novas rotinas, alterações na alocação de recursos públicos, a redução da participação dos gastos municipais em saúde em relação à receita tributária e a ausência de investimentos em saneamento básico nas novas comunidades mais vulneráveis da cidade, os indicadores passaram a registrar piora gradual.

Os resultados poderiam ter sido ainda mais negativos se não fosse o trabalho comprometido e incansável das equipes técnicas da Atenção Básica da Prefeitura e dos profissionais de enfermagem dos hospitais, que continuaram desempenhando suas funções com responsabilidade e dedicação.

Mesmo com esse esforço, a Secretaria Municipal de Saúde sofreu os impactos da redução de recursos, da demora na reposição de profissionais que se aposentaram ou deixaram seus cargos e da elevada rotatividade no comando da pasta. Em apenas cinco anos, o município teve cinco secretários municipais de Saúde. Essa instabilidade administrativa certamente dificultou o aprimoramento e a continuidade das políticas públicas voltadas à atenção básica, fundamentais para o acompanhamento das gestantes e de seus bebês.

O resultado é preocupante. A taxa de mortalidade infantil em Piracicaba voltou a superar a marca de 11 óbitos por mil nascidos vivos em diversos anos. Em 2024, o índice atingiu 11,01 por mil nascidos vivos e, em 2025, primeiro ano da atual gestão, aumentou para 11,55 por mil nascidos vivos.

De forma objetiva, pode-se afirmar que, se o município tivesse mantido os índices alcançados em 2020, a vida de vários bebês poderiam ter sido preservadas nesse período.

Os números demonstram uma realidade incontestável: quando políticas públicas bem-sucedidas são descontinuadas, enfraquecidas ou executadas de forma inadequada, os resultados aparecem nos indicadores sociais. Reverter esse quadro exige mais investimentos em saúde (e não cortes de recursos), a contratação e valorização de profissionais, o fortalecimento da atenção básica e a ampliação dos investimentos em saneamento nas comunidades mais vulneráveis, que foram negligenciadas nos últimos anos.

A mortalidade infantil não é apenas um indicador estatístico. Ela representa vidas interrompidas precocemente e reflete a capacidade de uma sociedade proteger suas crianças. Por isso, seu enfrentamento deve voltar a ser uma prioridade absoluta para Piracicaba.

 

Barjas Negri foi ministro da Saúde e prefeito de Piracicaba por três gestões

Compartilhe:
COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!
Carregando...