Por Licia Mangiavacchi
Esquecimentos frequentes, dificuldade de concentração, lapsos de memória e sensação de lentidão no raciocínio estão entre as queixas relatadas por muitas mulheres durante a transição para a menopausa. Conhecido popularmente como “névoa mental”, esse conjunto de sintomas tem despertado cada vez mais a atenção da comunidade científica e dos profissionais de saúde por seu impacto na rotina, na vida profissional e no bem-estar emocional das pacientes.
A menopausa é marcada pelo encerramento definitivo dos ciclos menstruais e por uma importante redução na produção de hormônios, especialmente o estrogênio, substância que desempenha papel fundamental não apenas na saúde reprodutiva, mas também no funcionamento do cérebro. Estudos recentes têm demonstrado que as alterações hormonais características desse período podem influenciar processos relacionados à memória, à atenção e à velocidade de processamento das informações.
Segundo a ginecologista Dra. Flávia Mambrini, muitas mulheres chegam ao consultório preocupadas com a possibilidade de estarem desenvolvendo problemas neurológicos mais graves, quando, na verdade, os sintomas podem estar relacionados às mudanças hormonais da menopausa. “A névoa mental é uma queixa bastante comum durante a transição menopausal. As pacientes relatam dificuldade para encontrar palavras, esquecimentos do dia a dia, redução da concentração e sensação de menor desempenho cognitivo. Esses sintomas são reais e têm relação com as transformações hormonais que ocorrem nessa fase”, explica.
De acordo com a Sociedade Norte-Americana de Menopausa (The Menopause Society), alterações cognitivas leves e temporárias podem ocorrer durante o climatério e a menopausa, especialmente devido à queda dos níveis de estrogênio. Além disso, fatores frequentemente associados a essa fase, como insônia, ondas de calor, ansiedade, alterações de humor e estresse, também podem contribuir para a piora da memória e da capacidade de concentração.
A especialista destaca que o cérebro possui receptores para estrogênio em áreas importantes relacionadas à cognição e à memória. “O estrogênio participa de diversos mecanismos neurológicos, incluindo a comunicação entre neurônios e a proteção de estruturas cerebrais. Quando ocorre sua redução, algumas mulheres podem perceber mudanças cognitivas que, na maioria dos casos, são transitórias e não significam necessariamente uma doença neurodegenerativa”, afirma a Dra. Flávia Mambrini.
Embora a névoa mental seja considerada uma manifestação comum da menopausa, especialistas ressaltam que os sintomas não devem ser ignorados. A avaliação médica é importante para diferenciar alterações hormonais de outras condições que também podem afetar a função cognitiva, como distúrbios da tireoide, deficiência de vitaminas, transtornos do sono, depressão e doenças neurológicas.
Pesquisas recentes também apontam que a adoção de hábitos saudáveis pode contribuir para a preservação da saúde cerebral durante essa fase da vida. Prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, controle do estresse, estímulo cognitivo, sono de qualidade e acompanhamento médico adequado estão entre as principais recomendações para reduzir o impacto dos sintomas.
“A saúde cerebral deve ser vista como parte integrante dos cuidados com a menopausa. Hoje sabemos que cuidar do sono, da alimentação, da saúde cardiovascular e da saúde emocional influencia diretamente a função cognitiva. Quanto mais abrangente for o cuidado, melhores tendem a ser os resultados para a qualidade de vida da mulher”, ressalta a ginecologista.
Nos últimos anos, o tema ganhou maior visibilidade à medida que estudos passaram a aprofundar a relação entre menopausa e funcionamento cerebral. Esse avanço tem contribuído para desmistificar sintomas frequentemente minimizados ou atribuídos apenas ao envelhecimento natural, permitindo que mais mulheres busquem orientação especializada e recebam acompanhamento adequado.
Para a Dra. Flávia Mambrini, o principal recado é que as mulheres não precisam enfrentar essas mudanças sozinhas. “A informação é uma ferramenta poderosa. Quando a paciente compreende que as alterações cognitivas podem fazer parte desse período e busca orientação médica, ela consegue adotar estratégias que ajudam a preservar seu bem-estar, sua produtividade e sua qualidade de vida”, conclui.
Com o aumento da expectativa de vida feminina, a menopausa passou a ocupar uma parcela significativa da vida das mulheres. Nesse contexto, compreender os impactos das alterações hormonais sobre o cérebro torna-se fundamental para promover envelhecimento saudável, autonomia e qualidade de vida em todas as fases da maturidade.