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Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Publicada em: 01/06/2026 14:33 -

1989 e 2026: o Brasil está revivendo sua grande encruzilhada política?

 

Ronaldo Castilho

 

A história política brasileira parece caminhar em círculos. Em determinados momentos, o país se vê diante de eleições que extrapolam a simples escolha de governantes e assumem um caráter quase simbólico, como se a sociedade estivesse sendo obrigada a decidir não apenas quem ocupará o poder, mas qual modelo de nação deseja construir. Foi assim em 1989, na primeira eleição presidencial direta após a Ditadura Militar, e há fortes indícios de que 2026 poderá ocupar papel semelhante na história contemporânea do Brasil.

Embora separadas por quase quatro décadas, as duas eleições compartilham elementos inquietantes: polarização intensa, desgaste institucional, crise de confiança na política tradicional, fortalecimento do discurso emocional e uma sociedade profundamente dividida sobre o futuro do país. A diferença é que, em 1989, o Brasil saía de uma ditadura em busca da democracia; em 2026, o país parece discutir justamente os limites, os defeitos e a sobrevivência dessa democracia.

A eleição de 1989 carregava um simbolismo gigantesco. Depois de 21 anos de regime militar, o povo brasileiro voltava às urnas para escolher diretamente o presidente da República. O país vivia inflação descontrolada, pobreza elevada, descrença econômica e enorme ansiedade social. A Nova República ainda era uma experiência recente e frágil. Naquele contexto, os candidatos não representavam apenas partidos, mas projetos quase civilizacionais.

Fernando Collor de Mello surgiu como o candidato do combate à corrupção, do choque contra os chamados “marajás” e da promessa de modernização econômica. Luiz Inácio Lula da Silva, por outro lado, representava a ascensão dos movimentos sindicais, das classes populares e da esquerda organizada após a repressão militar. O segundo turno transformou-se em uma disputa carregada de emoção, medo e esperança.

O cientista político Bolívar Lamounier escreveu que a eleição de 1989 foi marcada por uma “democracia emocional”, em que o eleitor votava muito mais impulsionado pela rejeição ao passado e pelas expectativas sobre o futuro do que propriamente por programas detalhados de governo. Essa definição parece assustadoramente atual quando observamos o cenário político brasileiro contemporâneo.

As eleições de 2026 também se desenham sob forte componente emocional. O país chega ao pleito após anos de radicalização política, disputas institucionais intensas, crises econômicas cíclicas, ataques à credibilidade das instituições e ampliação da influência das redes sociais no comportamento eleitoral. A política brasileira tornou-se cada vez mais afetada pela lógica da guerra cultural, em que temas morais, identitários e simbólicos frequentemente ocupam mais espaço do que debates estruturais sobre economia, educação ou desenvolvimento.

O filósofo francês Gilles Lipovetsky argumenta que as democracias contemporâneas vivem a era da “hiperpolitização emocional”, em que sentimentos coletivos são mais determinantes que racionalidade programática. O eleitor moderno, segundo ele, reage mais ao medo, à indignação e à identificação simbólica do que às propostas concretas. Basta observar o ambiente político brasileiro para perceber como essa leitura se encaixa perfeitamente tanto em 1989 quanto em 2026.

Entretanto, existe uma diferença fundamental entre os dois períodos. Em 1989, havia uma esperança coletiva de reconstrução nacional. O Brasil acreditava que a democracia resolveria seus problemas históricos. Hoje, parte significativa da população demonstra frustração justamente com os resultados da própria democracia. A sensação de que o sistema político falhou em entregar estabilidade, segurança e prosperidade alimenta discursos populistas de diferentes vertentes ideológicas.

O sociólogo Zygmunt Bauman afirmava que sociedades inseguras tendem a buscar líderes fortes e soluções simples para problemas complexos. Essa lógica ajuda a explicar tanto a ascensão de Collor em 1989 quanto o fortalecimento contemporâneo de figuras políticas que se apresentam como outsiders ou salvadores da pátria. Em momentos de instabilidade, o eleitor frequentemente prefere narrativas emocionais à complexidade institucional.

Outro paralelo importante entre 1989 e 2026 está no papel da mídia. Em 1989, a televisão possuía influência quase absoluta sobre a opinião pública. O famoso debate entre Collor e Lula, editado e exibido no Jornal Nacional, tornou-se um dos episódios mais discutidos da história eleitoral brasileira. O controle da narrativa política passava pelos grandes veículos de comunicação.

Em 2026, o cenário mudou radicalmente. A televisão perdeu parte de sua centralidade para as redes sociais, os influenciadores digitais, os cortes de vídeo e os algoritmos. Se em 1989 a informação era concentrada, hoje ela é fragmentada e instantânea. Isso ampliou o acesso ao debate público, mas também fortaleceu a desinformação, as fake news e a radicalização.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han alerta que a sociedade digital produz excesso de informação e escassez de reflexão. Segundo ele, as redes sociais favorecem reações rápidas, impulsivas e superficiais, dificultando o pensamento crítico. Essa análise ajuda a compreender por que o ambiente político atual parece mais agressivo, acelerado e emocional do que o de 1989, embora ambos compartilhem forte polarização.

Há ainda uma semelhança relevante no enfraquecimento do chamado “centro político”. Em 1989, partidos tradicionais ligados à transição democrática perderam força diante de candidaturas mais radicais ou simbólicas. Em 2026, novamente observa-se dificuldade de construção de lideranças moderadas capazes de dialogar amplamente com diferentes setores da sociedade. O eleitor parece cada vez menos disposto a apoiar discursos conciliadores.

O historiador José Murilo de Carvalho observou que a democracia brasileira frequentemente oscila entre momentos de entusiasmo popular e períodos de profundo desencanto institucional. Essa oscilação cria um ambiente propício para aventuras políticas, personalismos e crises de representação. Em outras palavras, o Brasil ainda possui dificuldades históricas em consolidar uma cultura democrática plenamente madura.

Contudo, comparar 1989 e 2026 exige cuidado para evitar simplificações. O Brasil de hoje é muito diferente daquele que saía da Ditadura Militar. As instituições democráticas estão mais consolidadas, a sociedade civil é mais organizada e existe maior participação popular no debate público. Apesar das crises recentes, o país acumulou experiência democrática significativa ao longo das últimas décadas.

Além disso, as pautas mudaram profundamente. Em 1989, o centro do debate era a inflação e a reconstrução econômica. Em 2026, entram em cena temas como inteligência artificial, regulação das redes sociais, mudanças climáticas, segurança digital, polarização ideológica e crise de confiança institucional. O mundo tornou-se mais complexo e interconectado.

Mesmo assim, permanece a sensação de que o Brasil continua enfrentando dilemas estruturais semelhantes: desigualdade social, fragilidade educacional, baixa confiança nas instituições e dependência excessiva de lideranças personalistas. O cientista político Sérgio Abranches cunhou o termo “presidencialismo de coalizão” para explicar a complexidade do sistema político brasileiro, baseado em negociações constantes entre Executivo e Congresso. Muitos dos problemas enfrentados em 1989 persistem justamente porque as estruturas profundas do sistema político continuam produzindo instabilidade e fragmentação.

Outro ponto crítico é a transformação do eleitorado. Em 1989, havia forte expectativa coletiva em torno da democracia recém-conquistada. Em 2026, observa-se um eleitor mais cansado, desconfiado e frequentemente movido pela rejeição ao adversário. A eleição tende a ser menos uma disputa de esperança e mais uma batalha de rejeições mútuas.

Essa mudança é perigosa para qualquer democracia. Quando o voto deixa de ser guiado por projetos e passa a ser movido apenas pelo medo do outro lado, o ambiente político se deteriora. O filósofo Norberto Bobbio defendia que a democracia depende da capacidade de convivência entre divergências. Sem tolerância e respeito institucional, o conflito político pode ultrapassar os limites democráticos.

Talvez seja justamente esse o maior desafio das eleições de 2026. Mais do que escolher um presidente, o Brasil precisará decidir que tipo de convivência democrática deseja construir daqui para frente. O problema não está apenas nos candidatos, mas na forma como a própria sociedade passou a enxergar a política: como guerra permanente, e não como espaço de negociação coletiva.

A comparação entre 1989 e 2026 revela que o Brasil continua vivendo momentos decisivos de sua história democrática. Em ambas as eleições, o país se encontra dividido, emocionalmente mobilizado e em busca de respostas para crises profundas. A diferença é que, em 1989, havia a expectativa de inaugurar uma nova era; em 2026, existe o desafio de impedir o esgotamento dessa era democrática.

A história não se repete exatamente, mas frequentemente ecoa seus próprios conflitos. Se 1989 representou o nascimento esperançoso da democracia brasileira contemporânea, 2026 poderá representar seu maior teste de maturidade. O resultado dessa eleição talvez não defina apenas quem governará o Brasil pelos próximos quatro anos, mas também qual será a capacidade do país de preservar a própria ideia de democracia em tempos de radicalização e incerteza.

Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

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