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Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 22-05-2026

Publicada em: 22/05/2026 08:10 -

Por Adriana Passari - @adrianapassari

 

Serpentes

 

A fulaninha anda muito sorridente, aí tem coisa, diz a vizinha, observando a mulher do doutor Fulano que mora na esquina do mesmo quarteirão em que as duas amigas trocam impressões e boatos sobre a vida alheia de quem passa e até de quem não passa naquele momento. Sobra veneno pra todo lado. Quem não for vacinado corre alto risco de contaminação imediata. Às vezes elas portam vassouras, outras vezes ficam assim desarmadas, mas não menos letais. A vítima da vez é escolhida da forma mais aleatória ou improvável.

A fulaninha deu azar porque precisou dar um pulo na farmácia que fica duas ruas acima e escolheu ir caminhando para exercitar as pernas, bem na hora do encontro das peçonhentas.

Quando se deu conta já não havia tempo para desviar o caminho. Enfrentou as línguas bifurcadas de frente com o melhor sorriso que conseguiu apresentar e como não podia deixar de ser, virou assunto.

A moça que era bem apessoada e invejada por umas e outras lá no bairro foi alvejada por olhares e maledicências instantâneas. Sua aparência, sua roupa, seu jeito de andar, seu marido, sua vida toda e até as vidas passadas foram esmiuçadas à exaustão. Claro que nada de bom que houvesse no histórico da vítima rendia tanto assunto quanto o mal falar.

Pra se livrar de tanta poeira astral tóxica sobre seus ombros, a moça começou a assobiar no ritmo dos salmos lá da igreja que frequentava. Nos primeiros acordes já se animou e assobiou ainda mais alto, espantando de vez qualquer resíduo de energia ruim que pudesse lhe afetar os pensamentos. Sentiu-se mais leve e seguiu seu trajeto sem dar bola para a torcida adversária.

 

Ouça a história na voz de Adriana Passari:

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