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Coluna: Além do pódio

Publicada em: 13/05/2026 08:09 -

Treinador não é professor — e professor não é treinador

 

No debate sobre políticas públicas esportivas, existe uma confusão recorrente que parece pequena no discurso, mas é enorme na prática: tratar treinador e professor como se fossem a mesma função. Essa mistura de papéis não só compromete a qualidade da formação esportiva, como também revela um problema estrutural — a falta de compreensão, valorização e reconhecimento por parte do poder público.

O professor de esporte, especialmente no contexto educacional e de iniciação, tem como missão central formar. Formar cidadãos, repertório motor, valores e relação com o movimento. Seu trabalho está diretamente ligado ao processo pedagógico, à inclusão, à permanência e à construção de um ambiente seguro e acessível. Ele não trabalha apenas com desempenho — trabalha com desenvolvimento humano.

Já o treinador atua em outra camada. Seu foco é o rendimento. Ele organiza, planeja e executa estratégias voltadas à performance, competição e resultados. Lida com ciclos de treinamento, análise de adversários, periodização e gestão emocional em contextos de pressão. Enquanto o professor ensina o esporte, o treinador prepara para competir nele.

O problema começa quando essas funções são sobrepostas sem critério. Projetos públicos exigem resultados de medalha de profissionais contratados para iniciação. Professores são cobrados como treinadores, sem estrutura, sem equipe multidisciplinar e sem carga horária adequada. Ao mesmo tempo, treinadores são inseridos em ambientes educacionais sem formação pedagógica, o que compromete processos formativos importantes.

Essa confusão gera um efeito cascata: frustração de profissionais, baixa qualidade no atendimento aos alunos e desperdício de recursos públicos. Pior — cria uma narrativa distorcida sobre o que é “sucesso” no esporte, priorizando o pódio antes de garantir base sólida.

Outro ponto crítico é o reconhecimento institucional. Nem professores nem treinadores recebem, de forma consistente, o devido valor nas políticas públicas. Editais genéricos, contratações precárias e ausência de planos de carreira mostram que ainda tratamos o esporte como acessório, não como política estruturante.

Quando o poder público não diferencia funções, ele também não planeja corretamente. Sem essa clareza, não há como construir uma escada esportiva eficiente — aquela que começa na iniciação, passa pela formação e chega ao alto rendimento. Cada etapa exige profissionais com competências específicas.

Valorizar o professor é garantir acesso, permanência e qualidade na base. Valorizar o treinador é estruturar o caminho para o alto rendimento com responsabilidade e consistência. Um não substitui o outro — eles se complementam.

Se quisermos falar seriamente sobre desenvolvimento esportivo, precisamos começar pelo básico: entender quem faz o quê. Sem isso, continuaremos cobrando resultados de onde deveria haver formação — e exigindo formação de quem foi preparado para entregar performance.

E no fim, quem perde não é o sistema. São os atletas que nunca chegam lá.

 

Frederico Mitooka

Gestor Esportivo | CREF 027474-G/SP

Graduado em Educação Física e Comunicação Social com pós-graduação em Ciências Políticas e especialização em Gestão Pública.

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