No princípio era a Palavra...
Ivana Maria França de Negri
No início da Bíblia, no Gênesis, há o relato da criação do Céu e da Terra. Tudo era um imenso vazio, sem forma, sem cor, apenas um abismo escuro, onde pairava o Espírito de Deus.
E Deus iniciou a criação através da Palavra.
E apenas a Palavra existia. E a Palavra se fez luz, se fez firmamento, se fez sol, e todos os planetas do Universo.
E a Palavra criou os seres marinhos, aves, animais terrestres e por fim o Homem.
Em João 1:1 a narrativa se inicia assim: “ No princípio era o Verbo (Palavra). Verbo – Logos. Logos, termo grego que representa a expressão máxima divina.
E o Verbo era Deus, a Palavra Criadora, a mente divina.
Nada é mais importante do que a palavra criadora.
Do nada, o tudo se fez. Apenas com a força da Palavra.
Nossa mente insipiente não consegue alcançar essa grandeza, não compreende.
As mais sábias mentes que passaram por este planeta, quanto mais estudavam e mergulhavam no conhecimento, mais tinham consciência de sua ignorância, da pequenez de sua sapiência perante a Mente criadora.
Sócrates dizia: “Só sei que nada sei”, ao se aprofundar em seus estudos.
O poder das palavras é imensurável. Palavras condenam, dão glórias, às vezes são mais cortantes do que facas afiadas. Algumas vezes afagam, outras vezes são duras, ásperas e ferem. Palavras podem ser doces, suaves de se ouvir, como as sussurradas pelas mães aos ouvidos dos seus rebentos, enquanto eles lhes sugam o néctar da vida que brota farto em seus seios.
Até os animais são capazes de captar a essência de nossas palavras, ainda que falem outra “linguagem”. Sabem quando estamos satisfeitos com eles pela entonação de nossa voz, e quando não estamos de acordo com seu comportamento. E respondem ao seu modo, com latidos e miados, doces ou malcriados também.
Pessoas se exaltam por nada e destilam tão forte veneno nas palavras grosseiras e deseducadas, que morreriam fulminadas se mordessem a própria língua.
Essas palavras pestilentas, de negatividade extrema, são como células cancerosas que se multiplicam rapidamente e se alastram. São elas que, muitas vezes, iniciam os conflitos e originam guerras, e também são responsáveis pela maioria das doenças que os médicos não sabem diagnosticar as origens e muito menos receitar o remédio que vai curá-las.
Poetas sabem jogar com palavras bonitas, juntá-las harmoniosamente nos versos, e elas caem como bálsamo, uma abençoada chuva que revigora os ânimos e espalha a alegria. Boas palavras são mensageiras da paz e harmonizam os locais onde são proferidas ou lidas.
O maior arauto das boas palavras, viveu há mais de dois mil anos, e os homens não compreenderam sua mensagem de amor e paz. E o açoitaram, cuspiram em sua face, o condenaram e o pregaram numa cruz, com uma coroa de espinhos perfurando sua fronte...
Mas o que me levou a escrever este texto foi a Campanha “Uma Casa para a Palavra”, que tenta conscientizar sobre a importância das palavras escritas, faladas e pensadas, que são geradoras das ações. E da necessidade de um cantinho para a Academia Piracicabana de Letras, guardiã das palavras, que é uma entidade sem-teto há mais de 50 anos!
Ivana Maria França de Negri é escritora