Por Adriana Passari - @adrianapassari
A flor da pele
Vivia às turras a pobre. Encrencava todos os dias com a filha adolescente no mais alto grau “tipo” assim. Não tinha vida nem fácil, nem difícil, mas não isenta das dores e delícias de ser uma mulher madura trabalhadora da era moderna, quando tudo é permitido, mas principalmente tudo é cobrado e julgado instantaneamente por todos e o pior, por ela mesma. Quando a pele está boa, a roupa é que não cai bem.
Quando o trabalho deslancha, a vida amorosa vai ladeira abaixo e vice-versa. O minuto de folga que nunca chega se torna o sonho de consumo mais almejado.

O silêncio quando vem, está acompanhado de um barulho mental ensurdecedor que não cala por nada. Hoje, é só mais um dia na escalada da vida, ainda longe de alcançar uma meta. O objetivo? Esse muda a cada instante conforme a demanda.
O de hoje é pagar o conserto da máquina de lavar roupas, que de tanto aguentar desaforos resolveu dar uma pausa técnica. O cesto acumulado de roupas sujas vira reflexo do que mora dentro.
Uma alma deslavada de cansaços por batalhas perdidas e outras vencidas por exaustão. Ela não pode, ou melhor não se permite, melhor ainda, não quer deixar cair a peteca que insiste em sustentar no ar por uma ilusão de perfeição.
Ela só quer atravessar o deserto de aflições à sua frente para alcançar a água fresca cristalina que prometeram. Apesar das dores e distrações, ela vai chegar lá. Porque ela pode.
Ouça a história na voz de Adriana Passari: