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Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Publicada em: 09/03/2026 17:20 -

O Capital Social das Primeiras-Damas na Gestão Pública

 

Ronaldo Castilho

 

Ao longo da história republicana, a figura da primeira-dama sempre ocupou um espaço curioso entre o simbólico e o político, entre o protocolo e a ação concreta. Não eleita, mas permanentemente observada; sem cargo formal, mas muitas vezes com forte influência; sem mandato, mas com capacidade real de mobilização social. O papel das primeiras-damas na construção de políticas sociais revela muito sobre a forma como a sociedade enxerga o poder, o gênero e a própria política. Afinal, até que ponto essa função é apenas decorativa e até que ponto se torna instrumento efetivo de transformação?

Pensadores clássicos ajudam a iluminar essa discussão. Para Aristóteles, o ser humano é um animal político, cuja realização ocorre na vida em comunidade. A política, portanto, não se restringe aos cargos formais, mas às ações que impactam a pólis. Séculos depois, Nicolau Maquiavel lembraria que o poder não se sustenta apenas pela força institucional, mas também pela construção de imagem, virtù e capacidade de articulação. Já Hannah Arendt destacaria que o poder nasce da ação conjunta, do espaço público compartilhado. Sob essa perspectiva, as primeiras-damas, quando atuam como pontes entre governo e sociedade, não exercem um poder formal, mas constroem poder político na prática, a partir da articulação social.

Historicamente, o Brasil oferece exemplos marcantes. Darcy Vargas, esposa de Getúlio Vargas, criou a Legião Brasileira de Assistência, em 1942, iniciativa voltada inicialmente às famílias de soldados na Segunda Guerra Mundial, mas que se transformou em um dos maiores instrumentos de assistência social do país durante décadas. Seu trabalho mostrou que a primeira-dama podia ultrapassar o papel cerimonial e assumir protagonismo em políticas públicas, ainda que sob a lógica assistencialista típica da época.

Décadas depois, Ruth Cardoso, esposa de Fernando Henrique Cardoso, promoveu uma mudança significativa na abordagem social ao fortalecer o programa Comunidade Solidária. Antropóloga de formação, Ruth trouxe uma visão menos paternalista e mais estruturante das políticas públicas, defendendo a articulação entre Estado e sociedade civil organizada. Seu papel foi reconhecido inclusive por estudiosos que viam nela uma influência intelectual relevante dentro do governo, algo raro na história das primeiras-damas brasileiras.

Mais recentemente, Michelle Bolsonaro ganhou destaque por pautar a inclusão de pessoas com deficiência e por utilizar a Língua Brasileira de Sinais em eventos oficiais, ampliando a visibilidade dessa população. Independentemente de alinhamentos ideológicos, é inegável que sua atuação colocou determinados temas na agenda pública. O mesmo pode ser dito de Janja Lula da Silva, que tem buscado ampliar debates ligados à cultura, combate à fome e participação feminina, ocupando espaço público de maneira ativa e politicamente consciente.

No cenário internacional, Eleanor Roosevelt talvez seja o exemplo mais emblemático de transformação do papel da primeira-dama. Esposa de Franklin D. Roosevelt, ela não apenas reformulou a atuação social da Casa Branca, como também se tornou peça-chave na formulação da Declaração Universal dos Direitos Humanos na ONU. Sua trajetória mostra que a função pode transcender o vínculo conjugal e ganhar dimensão histórica própria.

A análise filosófica contemporânea também oferece elementos importantes. Simone de Beauvoir alertava que a mulher, historicamente, foi relegada ao papel de “outro”, definida em função do homem. A figura da primeira-dama simboliza, em certa medida, essa construção social: sua legitimidade política deriva da eleição do marido. No entanto, quando essa posição é utilizada para promover políticas sociais consistentes, ocorre uma inversão interessante. O espaço inicialmente simbólico transforma-se em instrumento de ação concreta, reconfigurando a própria percepção sobre o papel feminino na política.

Sob a ótica de Pierre Bourdieu, o poder simbólico é uma das formas mais eficazes de dominação, pois atua de maneira invisível e legitimada socialmente. A primeira-dama carrega consigo capital simbólico significativo. Sua imagem pública pode mobilizar recursos, voluntariado e apoio institucional. Quando bem utilizada, essa visibilidade se converte em políticas sociais eficazes; quando mal direcionada, reduz-se a ações pontuais e midiáticas, sem impacto estrutural.

Há, contudo, críticas legítimas. Em democracias maduras, cargos públicos deveriam ser ocupados por critérios técnicos ou eleitorais. O fato de a primeira-dama assumir protagonismo social sem mandato formal levanta questionamentos sobre transparência, orçamento e responsabilidade institucional. John Locke defendia que o poder político legítimo deriva do consentimento dos governados. Assim, é essencial que a atuação das primeiras-damas esteja vinculada a políticas públicas formalizadas, com controle e participação social.

Ainda assim, ignorar sua influência seria ingenuidade. A política também é feita de símbolos, empatia e capacidade de mobilização. Muitas primeiras-damas conseguem acessar públicos que o governante, por razões institucionais ou políticas, não alcança com a mesma sensibilidade. Em áreas como assistência social, infância, combate à fome e inclusão, sua atuação pode acelerar projetos, articular parcerias e dar rosto humano às ações governamentais.

No contexto municipal, essa dinâmica se torna ainda mais evidente. Primeiras-damas frequentemente assumem presidências de fundos sociais de solidariedade, coordenam campanhas de arrecadação e lideram iniciativas comunitárias. Em cidades médias e pequenas, onde a política é mais próxima da população, sua presença pode ser decisiva para engajar voluntários e ampliar o alcance de programas sociais.

O desafio contemporâneo é institucionalizar esse papel sem descaracterizá-lo. Transformar a boa vontade individual em política pública permanente. Garantir que as ações não dependam exclusivamente da personalidade de quem ocupa a posição, mas estejam integradas a estruturas técnicas e transparentes. A evolução histórica mostra que isso é possível. De Darcy Vargas a Ruth Cardoso, de Eleanor Roosevelt às primeiras-damas atuais, o percurso revela amadurecimento gradual.

No fim das contas, o papel das primeiras-damas na construção de políticas sociais reflete uma tensão permanente entre tradição e modernidade. De um lado, a herança de uma função ligada ao casamento e ao cerimonial. De outro, a possibilidade real de liderança, articulação e transformação social. Como ensinava Hannah Arendt, a política nasce quando as pessoas agem em conjunto no espaço público. Quando uma primeira-dama utiliza sua posição para promover inclusão, dignidade e justiça social, ela deixa de ser apenas coadjuvante do poder e passa a ser agente ativo da história.

A sociedade democrática do século XXI exige transparência, responsabilidade e participação. Mas também reconhece que liderança pode surgir em espaços não convencionais. Se o poder formal pertence aos eleitos, o poder de mobilizar consciências pertence àqueles que conseguem transformar visibilidade em ação. E, nesse terreno, as primeiras-damas continuam demonstrando que sua atuação pode ir muito além do protocolo, tornando-se peça relevante na arquitetura das políticas sociais brasileiras e mundiais.

Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. Possui licenciatura em História e Geografia, bacharelado em Teologia e Ciência Política, além de MBA em Gestão Pública com Ênfase em Cidades Inteligentes. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.

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