Da liderança à consultoria: a reinvenção de executivos brasileiros
Por Marcel Spadoto, consultor do Instituto Crescitá e aluno embaixador do MBA em Gestão de Pessoas pela USP/Esalq.
A trajetória de muitos executivos brasileiros tem revelado uma tendência crescente: a migração para a consultoria após anos de dedicação a cargos de liderança. Um estudo conduzido por mim, mostra que, por trás dessa decisão, há tanto sonhos de realização pessoal quanto pressões externas inevitáveis, como demissões e mudanças no mercado.
A amostra, com 275 respostas válidas de ex-executivos, aponta que 64% são homens, com idade entre 51 e 60 anos, e mais de 90% possuem pós-graduação. Ainda segundo o levantamento, a maioria realizou a migração a partir dos 40 anos, sendo comum a mudança após a demissão do cargo.
Alguns consideram como motivações externas para a tomada de decisão o apoio da família (78%) e de amigos (48,7%), além da percepção de que a consultoria exige menos investimento inicial.
Um dos dados mais surpreendentes é que quase metade dos executivos que se tornaram consultores não planejou a mudança. Muitos foram empurrados para essa realidade após perderem o emprego. Isso escancara um problema crônico do mercado de trabalho: a ausência de políticas de transição de carreira e a dificuldade que ainda temos em lidar com a maturidade profissional. A demissão, em muitos casos, se torna menos uma oportunidade de reinvenção e mais um salto no escuro.
Por outro lado, o estudo mostra um aspecto positivo: a consultoria é vista como espaço de autonomia e reinvenção. Mais de 70% afirmaram que já tinham desejo de empreender e 80% estão satisfeitos com a nova carreira.
Isso sugere que, mesmo quando motivada por fatores externos, a mudança pode abrir portas para um trabalho mais alinhado a propósito e identidade pessoal, algo que o mundo corporativo muitas vezes sufoca.
Ainda assim, chama atenção o fato de que quase metade dos consultores avaliaria voltar para cargos executivos.
O cenário revela uma ambiguidade interessante: a consultoria surge como alternativa promissora, mas ainda não substitui totalmente o peso simbólico e a estabilidade dos cargos executivos.
O desafio, portanto, não está apenas na escolha individual de cada profissional, mas também na necessidade de empresas, instituições e sociedade criarem caminhos mais estruturados de transição de carreira.