Saf vs 50+1
Enzo de Oliveira Vencovsky
Correspondente esportivo internacional
Innsbruck, Áustria
30/01/2026
Nos últimos anos, o futebol brasileiro entrou de vez na era das SAFs, as Sociedades Anônimas do Futebol. A ideia é simples: transformar clubes em empresas, atrair investidores e profissionalizar a gestão. Em muitos casos, funcionou. Em outros, nem tanto. E é aí que mora o debate.
Entre os pontos positivos da SAF estão a organização financeira, a redução de dívidas e uma gestão mais profissional, menos dependente de política interna. O Cruzeiro é um bom exemplo: saiu de uma crise profunda, se reestruturou e voltou a ser competitivo depois da venda de Ronaldo Nazário para Pedrinho BH, dono de uma rede de mercados de Minas Gerais,
que também é Cruzeirense. O Atlético Mineiro também conseguiu organizar suas contas e manter um elenco forte.
Mas SAF não é sinônimo automático de sucesso. O Botafogo é um caso que ilustra bem isso. Dentro de campo, viveu um grande momento, com títulos importantes, inclusive a Libertadores e a vitória sobre o PSG na Copa do Mundo de Clubes, um marco histórico para o time. Fora dele, enfrenta problemas sérios, como o transfer ban, que impede o clube de registrar jogadores. Ou seja, ganhar não significa que está tudo resolvido financeiramente e agora o Botafogo está enfrentando grandes dificuldades.
Já o Nhô Quim conquistou o tricampeonato da Copa Paulista em 2025, com vitória por 2 a 0 sobre o Primavera no Barão de Serra Negra, celebrando com sua torcida um título que o recoloca no cenário estadual e garante participação em competições nacionais em 2026.
E agora o clube entra em uma nova fase administrativa: o XV se transformou em SAF, com a cessão de 90% das ações para os grupos CFAW Brasil e Dry Telecom, em um negócio aprovado por unanimidade pelo Conselho. Entre os acionistas está o ex-atacante Luís Fabiano, que se juntou ao projeto como investidor, reforçando o interesse em fortalecer o clube no futuro.
Essa transformação traz expectativas de investimentos pesados, melhorias em infraestrutura e profissionalização da gestão. Mas também levanta perguntas sobre como equilibrar tradição e identidade com a lógica empresarial. A torcida agora espera que a SAF abra portas para crescimento real — dentro e fora de campo.
Na contramão desse modelo, há países como a Alemanha, onde vigora a regra do 50+1. Nela, os torcedores mantêm pelo menos 51% do controle do clube. Isso protege a identidade, evita decisões puramente comerciais e mantém o futebol mais próximo da comunidade. O lado negativo é a dificuldade de competir financeiramente com clubes-empresa de outros países.
No fim das contas, SAF não é vilã nem salvadora. É uma ferramenta. Pode dar muito certo com gestão responsável, transparência e projeto esportivo. Mas, sem isso, vira só mais um problema — mesmo com taça levantada.